Relatos ao Pé da Letra

Outra vez, felicidade.

Junho 11, 2009 · 1 Comentário

E revisitando García Márquez, desta vez em Do Amor e Outros Demônios, livro com o qual fui gentilmente presenteada por um amigo, reencontro uma curiosa definição de felicidade.

Sierva María de Todos Los Ángeles, personagem de imensa cabeleira “que se arrastava como a cauda de um vestido de noiva” e cuja essência só lendo o livro para entender, estava doente, com suspeita de raiva, após ter sido mordida por um cachorro. Filha única de um marquês, este decidira que a menina iria morrer em casa. O médico que acompanhava o caso, entendendo a decisão do pai, deu assim a sua resposta à pergunta do que fazer enquanto isso:

“Enquanto isso” – disse o médico – “Toquem música, encham a casa de flores, façam cantar os passarinhos, levem-na para ver o pôr-do-sol no mar, dêem-lhe tudo o que possa fazê-la feliz (…)  Não há remédio que cure o que a felicidade não cura.”

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Expectativas.

Maio 25, 2009 · 1 Comentário

Neste momento estou me despindo de um recente e recorrente pessimismo em relação aos seres humanos, eu aí incluída.

Tenho um amigo que costuma dizer que para não se decepcionar, basta não alimentar expectativas. Mas tem coisa mais gostosa que alimentar expectativa? O que seria da paixão se não fossem as expectativas?

Neste momento alimento grandes expectativas a meu respeito. Expectativa de a cada dia ser uma pessoa melhor (a despeito de todas as tentações), mais distante da cupidez e da mesquinhez, o que nos diminui; e mais próxima da generosidade e do desprendimento, o que nos faz crescer.

Oxalá eu viva tempo suficiente para dar valores reais a esta existência. Não quero me transformar numa velhinha atônita com o que disse, com o que foi e com o que fez.

Queira Deus!

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Boal.

Maio 6, 2009 · 1 Comentário

Augusto Boal era um maluco que subvertia a ordem “do que ordena” e “do que obedece” para a desordem “do que ora é o sujeito, ora é o objeto”,” ora obedece, ora comanda” – como ele próprio dizia.

“Alguém que ousou querer mudar o mundo através do teatro”, como diz Ferreira Gullar, um outro alguém que ousa fazer o mesmo, só que através da poesia.

E só.

Acha pouco?

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Saudade da Socorro.

Abril 18, 2009 · 8 Comentários

A Socorro era aquele tipo de pessoa que diz a verdade doa a quem doer. E como doía ouvir o que a gente sabia que ia doer ouvir. Mas ela dizia com todas as letras, no tom e olhar cruelmente exatos. Como Sean Connnery no filme Corações Apaixonados, às vezes tínhamos vontade de implorar: “Não me olhe com esse tom de voz”.

Muitas vezes exagerava. Mas se você tivesse a mínima desconfiança de ter errado no modelito escolhido para ir ao trabalho, ela te dava a certeza de que tinha mesmo. Portanto, se você foi vestida “como um sabiá”, era isso que ia ouvir se pedisse a opinião dela.

A Socorro era meio ríspida, meio generosa, meio indiferente, meio ácida, meio doce… Humana, enfim. E não se envergonhava de ser. Pelo contrário: fazia questão de que nós nos víssemos e nos sentíssemos humanos, através dela. Tinha a pretensão de colocar a todos no seu devido lugar.

Sonhei com ela noite passada. E lembrei-me do telefone tocando de madrugada com a voz da notícia que eu não queria receber. O câncer a tinha vencido. A ela, que eu achava invencível.

Ainda me emociono ao lembrar da sua voz já fraca, um dia antes de partir, me sussurrando quando eu lhe perguntei de onde ela tirava tanta força…

“É que eu tenho… A… migos…” . Foram as últimas palavras que ouvi dela.

Saudade de você, Socorro.

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Amy e Madeleine.

Abril 12, 2009 · 3 Comentários

Você já ouviu Amy Winehouse?

Não, não estou falando em ouvir falar de Amy Winehouse. Mas em ouvir Amy Winehouse. Só ouvir. Em CD. Esqueça DVD. Só ouça. Só. Em silêncio.  A essa inacreditável, surpreendente e deliciosa mistura de Nina Simone com Etta James. Algo sublime, de outro planeta. Realmente ela deve estar de passagem por aqui.

Comece relaxando, ouvindo Back to Black. Depois viaje com Love is a Losing Game. Acorde com Wake up alone. Volte aos poucos à realidade com Some Unholy War. E descanse. Você vai precisar.

E aí… Ouça Madeleine Peyroux, divina, suave, inebriante em seu quê de Billie Holiday, entoando The Summer Wind, Blue Alert e… Deus do céu! La Javanaise. É de sair do chão.

Só ouça.

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Felicidade.

Março 30, 2009 · Deixe um comentário

“Tudo o que dá prazer na vida é assim: a partir de um certo ponto, satura, deixa de satisfazer e começa a ficar positivamente desagradável.”

Esta e outras muitas questões são colocadas no livro “Felicidade”, do filósofo brasileiro Eduardo Giannetti, publicado em 2002 pela Editora Companhia das Letras, a partir de conversas entre quatro amigos, ex-colegas de faculdade, que  se encontram para discutir o tema. De Marx a Adam Smith, as citações formam um instigante pano de fundo para as conversas que, felizmente, não têm a pretensão de esgotar o tema.

“A felicidade seria a posse perpétua da condição de estar bem resignado, o estado pacífico e sereno de ser um tolo entre canalhas?” , “ A pobreza resulta do aumento dos desejos do homem e não da redução de suas posses?” Ou  “A busca da felicidade é uma interminável acumulação de bens de consumo?”.  “Seria o descontentamento, e não o contentamento, o motor de toda mudança?”.  Ou como dizia Mozart: “A felicidade existe apenas na nossa imaginação?”

Tudo é discutível. Mas pra mim, a questão maior do livro está em se querer sinceramente saber “Até que ponto as nossas escolhas têm conduzido à criação de condições adequadas para vidas mais livres e dignas de serem vividas?” Esse é o ponto.

Agora, se você estiver com preguiça de ler e quiser encurtar o caminho, vá à Bahia. Lá não é a terra da felicidade?

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Novamente, Deus.

Março 24, 2009 · 3 Comentários

Na semana passada ao ler a notícia sobre a atriz inglesa Natasha Richardson, filha da também atriz Vanessa Redgrave, que dispensava o capacete durante suas aulas de esqui, caiu, bateu a cabeça e acabou morrendo vitimada por uma hemorragia no interior do crânio, lembrei-me de uma passagem num livro de orientação kardecista que dizia mais ou menos o seguinte:

Um homem estava terminando de roçar um terreno quando um outro, com bíblia embaixo do braço, indo para um culto numa igreja próxima, ironizou:

- Que belo trabalho você e Deus fizeram nesse terreno, hein?

Ao que o homem respondeu:

- É… Mas você precisava ver como estava isso aqui quando Deus cuidava sozinho…

Moral da história: até Deus precisa de uma ajudazinha de vez em quando, né?

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Homo Sapiens.

Março 15, 2009 · 2 Comentários

“Existem atualmente 193 espécies de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única exceção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo Sapiens. Esta insólita e próspera espécie passa grande parte do tempo a examinar as suas mais elevadas motivações, enquanto se aplica diligentemente a ignorar as motivações fundamentais (…) Apesar de se ter tornado tão erudito, o Homo Sapiens não deixou de ser um macaco pelado e, embora tenha adquirido motivações muito requintadas, não perdeu nenhuma das mais primitivas e comezinhas. Na verdade, o Homo Sapiens andaria muito menos preocupado e sentir-se-ia muito mais satisfeito se fosse capaz de aceitar esse fato.”

Esse texto está na Introdução do livro  “O Macaco Nu”  (The Naked Ape) do zoólogo inglês Desmond Morris, publicado em 1967 mas que é mais atual que qualquer outro livro que trata sobre a natureza humana.

Não é um livro de ficção. É Ciência. Mas a gente lê como se fosse um romance. Mostra como no fundo, o nosso comportamento afetivo, social e sexual é ainda essencialmente primata. É curioso e instigante o capítulo sobre Sexo.

Agora, se você não gosta de ser visto como um animal, siga seu instinto: não leia.

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Incompletos.

Março 3, 2009 · 4 Comentários

Recebi esta mensagem do meu Coach Marcus Baptista, como sendo de autoria do escritor João Guimarães Rosa. Mas não importa de quem seja, e sim a mensagem.

“Cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que lhe é concedido. Sua tarefa nunca é maior que sua capacidade para poder cumpri-la. Ela consiste em preencher seu lugar, em servir à verdade e aos homens. Conheço meu lugar e minha tarefa; muitos homens não conhecem ou chegam a fazê-lo quando é demasiado tarde. Por isso tudo é muito simples para mim e só quero fazer justiça a esse lugar e a essa tarefa.” … Mire e veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra”. João Guimarães Rosa.

Lembrou-me aquele anjo que sussurrou no ouvido do poeta sueco Tomas Tranströmer em frente à Igreja Românica: “Não se envergonhe de ser um ser humano, orgulhe-se! Dentro de você um arco se abre atrás de outro, infinitamente. Você nunca estará completo, e é assim que tem de ser.”

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Amigos.

Março 1, 2009 · 2 Comentários

Amigos, desculpem. Duas semanas fora do ar, com problemas no computador. Mas estou de volta.

E por falar em amigos…

Amigo pra mim não é aquele que te oferece dinheiro num momento difícil porque está com pena de você e se acha invulnerável. Mas aquele que te inscreve num curso só porque ele tem certeza de que vai te ajudar a superar a crise. E paga por isso.

Amigo pra mim não é aquele que num momento difícil da sua vida nunca mais te convida para almoçar ou para aquele happy hour de sempre só porque tem medo (vergonha?!) de que você não consiga dividir a conta. Mas aquele que passa a frequentar outros locais mais em conta só para usufruir da sua companhia.

Amigo não é aquele que acha que só porque você está num momento difícil perdeu sua experiência, conhecimento e capacidade de pensar. Mas aquele que todos os dias lembra você de que é essa experiência – somada à sua formação e conhecimento – que vai te tornar mais forte.

Amigo não é aquele que acha que o problema dele é sempre maior que o seu e que por isso não pode ajudar. Mas sim aquele que, apesar de estar com problemas infinita e concretamente maiores que o seu, encontra tempo e disposição para ajudar a recuperar sua auto-estima.

Amigo é, enfim, aquela pessoa que realmente acredita em você naquele momento terrível em que nem mesmo você mais acredita, e que te dá a mão e te coloca novamente em cena.

Obrigada, amigos.

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