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Comecei a ler “O Andar do Bêbado” quase por acaso. Ou talvez para tentar entender o que leva uma pessoa, em certo ponto da vida, a fazer um curso de Ciências Atuariais. Aliás, não por acaso, tenho muitos amigos atuários.
O livro do físico americano Leonard Mlodinow trata das probabilidades (coisa de atuário?!). Mais especificamente de como o acaso comanda nossas vidas e de quanto não nos damos conta disso apenas porque nosso cérebro, ao menos o hemisfério esquerdo dele, fica tentando encontrar um padrão em todas as situações, mesmo quando não existe um padrão. Parece que não fomos mesmo programados para eventos fortuitos, para a aleatoriedade, para a incerteza .
Talvez seja por isso que não damos à Sorte o crédito pelos nossos sucessos nem ao acaso o fato de estarmos num e não noutro caminho. Pelo contrário, temos certeza de que fomos nós que escolhemos nosso destino ao fazermos escolhas.
O livro termina com uma saída: “Minha mãe me ensinou a aceitar os eventos fortuitos que nos causam sofrimentos (…) E a apreciar a ausência das doenças, da guerra, da fome e dos acidentes que não – ou ainda não – nos acometeram.”
É… Eu sabia que tinha uma boa explicação para eu ter ficado hoje sete horas dentro de um carro tentando chegar em São Paulo debaixo de uma interminável tempestade.
Mais um evento fortuito que me livrou de algo pior?
Quem sabe?
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… Mesmo quando não tem ninguém olhando?
Pois é… O “Mesmo quando não tem ninguém olhando” é que é o problema. Você faria alguma coisa boa por alguém sem contar pra ninguém? Sim, porque se você contar, deixa de ser uma boa ação. Ou não?
Esta é a pergunta a que nos remete o filme “Sete Vidas”, direção de Gabriele Muccino, que tem o intuito de nos levar a fazer algo que deveríamos fazer sozinhos e naturalmente, que é pensar. Mas cumpre o papel do cinema, que é o de entreter. E entreter no sentido de desocupar-se de algo material para ocupar-se de algo acima do que é puramente físico. Que é, aliás, o que eu penso do cinema. Que é o motivo pelo qual eu gosto de cinema.
Não sou crítica para ficar julgando a interpretação dos atores ou a competência da direção do filme. Apenas que “Sete Vidas” me fez, por algumas horas, parar de pensar no meu cotidiano, abandonar minhas atividades diárias e refletir sobre quantas pessoas eu ajudei nesta semana e não contei pra ninguém que ajudei; em quantas pessoas eu ajudei e contei pra todo mundo; e em quantas pessoas eu não ajudei só porque ninguém ia saber… Só isso.
Será que não está faltando no nosso dia-a-dia algo como compaixão, piedade (sim, esta palavra ainda existe!) e misericórdia? Sem qualquer conotação religiosa?
Será?
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Li neste final de semana, numa matéria sobre violência no trânsito, as seguintes palavras de um entregador de pizza fotografado em pose imponente sobre sua motocicleta: “Se eu estiver certo, persigo o motorista e vou até o fim. Já arranquei uns três retrovisores”(Veja S. Paulo, Ed. 2123 de 29/07/09).
Afora imagens espantosas de violência entre motoristas, essa frase do entregador de pizza ficou na minha cabeça e provavelmente na de muitas pessoas que leram a reportagem, por um motivo igualmente espantoso: o de que é (ou parece que é) plenamente natural dar uma entrevista a um jornalista, afirmando que se vai cometer uma violência sem nem se preocupar com as conseqüências. Talvez porque já vivamos numa sociedade que não pune, mas tolera e até incentiva tudo o que é violento. Para muitos, provavelmente esse entregador de pizza é o “garoto esperto que não leva desaforo pra casa”. Para outros, é a próxima vítima de seu próprio instinto porque mais dia menos dia ele vai encontrar pela frente alguém ainda pior que ele.
Para mim, fica só a sensação de que estamos cada vez mais nos conduzindo pela lei de talião, aquela que prescreve ao transgressor pena igual ao crime que praticou, princípio que ainda é utilizado em muitos países do Oriente. Aqui, lamentavelmente acrescido de uma boa dose de cruel banalidade.
Pobre de nossa sociedade… Pobre de nós.
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Augusto Boal era um maluco que subvertia a ordem “do que ordena” e “do que obedece” para a desordem “do que ora é o sujeito, ora é o objeto”,” ora obedece, ora comanda” – como ele próprio dizia.
“Alguém que ousou querer mudar o mundo através do teatro”, como diz Ferreira Gullar, um outro alguém que ousa fazer o mesmo, só que através da poesia.
E só.
Acha pouco?
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A Socorro era aquele tipo de pessoa que diz a verdade doa a quem doer. E como doía ouvir o que a gente sabia que ia doer ouvir. Mas ela dizia com todas as letras, no tom e olhar cruelmente exatos. Como Sean Connnery no filme Corações Apaixonados, às vezes tínhamos vontade de implorar: “Não me olhe com esse tom de voz”.
Muitas vezes exagerava. Mas se você tivesse a mínima desconfiança de ter errado no modelito escolhido para ir ao trabalho, ela te dava a certeza de que tinha mesmo. Portanto, se você foi vestida “como um sabiá”, era isso que ia ouvir se pedisse a opinião dela.
A Socorro era meio ríspida, meio generosa, meio indiferente, meio ácida, meio doce… Humana, enfim. E não se envergonhava de ser. Pelo contrário: fazia questão de que nós nos víssemos e nos sentíssemos humanos, através dela. Tinha a pretensão de colocar a todos no seu devido lugar.
Sonhei com ela noite passada. E lembrei-me do telefone tocando de madrugada com a voz da notícia que eu não queria receber. O câncer a tinha vencido. A ela, que eu achava invencível.
Ainda me emociono ao lembrar da sua voz já fraca, um dia antes de partir, me sussurrando quando eu lhe perguntei de onde ela tirava tanta força…
“É que eu tenho… A… migos…” . Foram as últimas palavras que ouvi dela.
Saudade de você, Socorro.
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Você já ouviu Amy Winehouse?
Não, não estou falando em ouvir falar de Amy Winehouse. Mas em ouvir Amy Winehouse. Só ouvir. Em CD. Esqueça DVD. Só ouça. Só. Em silêncio. A essa inacreditável, surpreendente e deliciosa mistura de Nina Simone com Etta James. Algo sublime, de outro planeta. Realmente ela deve estar de passagem por aqui.
Comece relaxando, ouvindo Back to Black. Depois viaje com Love is a Losing Game. Acorde com Wake up alone. Volte aos poucos à realidade com Some Unholy War. E descanse. Você vai precisar.
E aí… Ouça Madeleine Peyroux, divina, suave, inebriante em seu quê de Billie Holiday, entoando The Summer Wind, Blue Alert e… Deus do céu! La Javanaise. É de sair do chão.
Só ouça.
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Amigos, desculpem. Duas semanas fora do ar, com problemas no computador. Mas estou de volta.
E por falar em amigos…
Amigo pra mim não é aquele que te oferece dinheiro num momento difícil porque está com pena de você e se acha invulnerável. Mas aquele que te inscreve num curso só porque ele tem certeza de que vai te ajudar a superar a crise. E paga por isso.
Amigo pra mim não é aquele que num momento difícil da sua vida nunca mais te convida para almoçar ou para aquele happy hour de sempre só porque tem medo (vergonha?!) de que você não consiga dividir a conta. Mas aquele que passa a frequentar outros locais mais em conta só para usufruir da sua companhia.
Amigo não é aquele que acha que só porque você está num momento difícil perdeu sua experiência, conhecimento e capacidade de pensar. Mas aquele que todos os dias lembra você de que é essa experiência – somada à sua formação e conhecimento – que vai te tornar mais forte.
Amigo não é aquele que acha que o problema dele é sempre maior que o seu e que por isso não pode ajudar. Mas sim aquele que, apesar de estar com problemas infinita e concretamente maiores que o seu, encontra tempo e disposição para ajudar a recuperar sua auto-estima.
Amigo é, enfim, aquela pessoa que realmente acredita em você naquele momento terrível em que nem mesmo você mais acredita, e que te dá a mão e te coloca novamente em cena.
Obrigada, amigos.
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Aprendemos alguma coisa assistindo a filmes? Eu acho que não.
Filme para mim é entretenimento. Algo como distração, ou seja, algo que serve para “afastar o espírito de uma ocupação física”.
Por mais que um filme tenha a pretensão de ser “intelectual”, “cabeça”, “político” “realista”, filme para mim será sempre entretenimento. Uma coisa que se parece com a vida mas que não é a vida. E isso é que é extraordinário num filme. Seja “O Ano Passado em Marienbad” de Alain Resnais seja “Indiana Jones” de Steven Spielberg, pra mim é tudo entretenimento. Não importa se na vida real não sejamos tão “inefáveis” ou se a floresta amazônica se pareça mais com o nosso quintal. Nada disso importa. O que importa é nos emocionarmos e nos divertirmos. Isso é o que importa.
Nenhum filme vai me convencer a fazer algo de bom pelo planeta, nenhum filme vai me convencer a não ser racista, nenhum filme vai me convencer a ser patriota, nenhum filme vai me convencer a não ser preconceituosa. Para mim, quem ensina e educa é família (no sentido mais amplo que essa palavra possa ter). Quem forma é escola ( no sentido mais restrito que essa palavra possa ter). O resto? Bem… O resto é entretenimento.
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