Relatos ao Pé da Letra

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Liv Ullman

Outubro 27, 2008 · 1 Comentário

Das coisas bonitas que a atriz Liv Ullman disse nas entrevistas que concedeu em sua recente visita a São Paulo, uma ficou na minha memória. Ao lhe perguntarem sobre o que mudou na vida dela desde o lançamento do seu livro “Mutações”, em 1975, ela respondeu: “Naquela época eu ainda não sabia como a vida é preciosa.” E como a vida é preciosa! Que nos lembremos sempre disso e não apenas quando em risco de perdê-la.

Liv Ullman está linda, serena, mais que perfeita aos 70 anos de idade. Sim, porque perfeita eu já a considerava nos filmes de Ingmar Bergman.

Só por isso, ela não merecia dividir o palco com aquele banner do patrocinador, onde se lia: “O legítimo bacalhau da Noruega!”

Ninguém merece!

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Leis.

Setembro 28, 2008 · Deixe um comentário

Tudo verdade!

NO BAR, ao ver cinzeiros nas mesinhas, pergunto:

- Garçon, aqui não pode fumar, né?

E ele:

- Claro que pode!

- Ué – digo eu, surpresa _  E aquela placa lá na recepção informando que é proibido fumar?

E ele:

- Ah! Aquela placa? É só por causa da lei…

(E eu pensando: “A lei é só pra pôr a placa?!?!”)

NO DIA DE RODÍZIO, ao ver a aluna saindo da aula numa segunda-feira antes das 20 horas, o professor perguntou:

- Hoje não é seu dia de rodízio? Você vai ser multada!

E ela:

- Eu vou escondido.

E o professor:

Mas e se te pegarem?

- Bom – diz ela – aí F… Porque minha carta está cassada desde janeiro.

(E o professor pensando que o problema era o rodízio…).

NO TRÂNSITO, meu amigo a toda velocidade cruza o sinal vermelho. O guarda pede para ele estacionar e pergunta:

_ O senhor não viu o sinal vermelho?

E ele:

_ Claro que vi! O que eu não vi foi o senhor aí pra me multar!

(E eu pensando que o problema era o semáforo).

RECÉM-SAÍDO DO HOSPITAL, a um amigo que acabou de fazer uma cirurgia, eu pergunto:

- Numa cirurgia dessas, você ficou só 1 dia internado? Não deveria ter ficado pelo menos uma semana?

E ele:

- Não. Os próprios médicos aconselham ficar o menos tempo possível no hospital pra gente não pegar infecção hospitalar…

(E eu pensando…)

PAREI DE PENSAR! Fica pra vocês pensarem.

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Diário Mínimo

Setembro 22, 2008 · 1 Comentário

Das coisas non-sense que já li, um trecho do conto Fragmentos do livro Diário Mínimo, de Umberto Eco, está certamente entre os mais demonstrativos da estupidez humana. Num fictício Congresso Intergaláctico de Estudos Arqueológicos “a realizar-se” no ano 121 D.E. (Depois da Explosão, que tornou extinta nossa civilização como hoje a conhecemos), cientistas no futuro tentam encontrar (e entender) vestígios desta nossa “antiqüíssima” cultura. O trecho começa assim: “E recordaremos que a Ciência italiana da época devia encontrar-se indubitavelmente avançada no capítulo das pesquisas genéticas, embora esses conhecimentos fossem provavelmente utilizados segundo fins de uma prática racista da eugenia, como sugere a caixa de um pacote que deve ter contido um medicamento destinado a melhorar a raça, com a inscrição OMO (alteração do latim homo e contração na gíria do Uomo itálico) – o branco mais branco“.  Não é ótimo?

Em Diário Mínimo, além de Fragmentos, Umberto Eco apresenta-nos à Mike Bongiorno. Quem trabalha com Comunicação ainda se espanta com a atualidade do texto: “O homem rodeado pelos mass media é no fundo, entre todos os seus semelhantes, o mais respeitado: não se lhe pede nunca senão que se torne aquilo que já é. Por outras palavras, são-lhe provocados desejos estudados segundo a pauta das suas tendências“.

Mais pós- moderno que isso, impossível.

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Meursault

Setembro 14, 2008 · 1 Comentário

Sempre que leio nos jornais que alguém matou alguém e depois foi ao cinema ou foi fazer outra coisa  “como se nada tivesse acontecido”, lembro-me inevitavelmente (mas com todas as ressalvas, é claro) de Meursault, que não chorou no enterro da mãe, que matou um homem sem motivo e que ao ser inquirido pelo juiz que o condenaria à morte sobre se ele estava arrependido do seu ato, respondeu simplesmente que “Mais do que verdadeiro arrependimento, sentia um certo tédio.”

Meursault é o personagem principal de “O Estrangeiro”, primeiro romance de Albert Camus (1913-1960), escritor que explorou de forma magnífica o tema do absurdo da existência humana. 

A história de “O Estrangeiro” é tão simples que chega a ser banal. Tão banal quanto a existência de Meursault que acaba sendo executado mais pela ausência de sentimentos que pelo crime cometido.

Meursault não mente, não omite, não engana, não trapaceia. Talvez seja isso que não perdoamos nele. Essa falta de “humanidade”.

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Preguiiiiça.

Setembro 4, 2008 · 1 Comentário

Às vezes me bate uma preguiiiiiça quando ouço gente falando de coisas que há tempos se sabe sobre gente, como se fosse uma novidade, como se o ser humano com seus desejos, necessidades, expectativas, incoerências, incongruências, constâncias e inconstâncias tivesse começado a existir no dia em que essa gente saiu da escola e digitou sua senha pela primeira vez no computador da empresa… Bate mesmo uma enorme preguiiiça quando ouço gente falando de gente como se eles próprios não fossem gente…

Será que é a idade? Ou será que é a experiência?

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Comentário de um amigo no meu email particular:

“Acho que é a experiência, que não tem tolerância para bobagem. “

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Vida de cachorro.

Setembro 1, 2008 · 5 Comentários

Guri e Preto. Essa é a dupla de malfeitores que eu e meu marido sustentamos há sete anos um, três anos o outro.. Parecem uns anjinhos, mas eu lhes garanto que são dois pilantras. Já destruíram nossos móveis, comeram nossos sapatos, mastigaram nossas roupas, pulam na gente e sujam as nossas roupas sempre que a gente chega da rua, já enterraram dezenas de controles remotos, roubaram comida de cima da pia, de dentro da geladeira e até do tanque das tartarugas (agem em dupla), já se embriagaram, babaram nas nossas visitas, fizeram xixi nos  sapatos de nossos amigos, são os donos do sofá da sala – se alguém sentar, eles literalmente sentam em cima da pessoa sem a menor cerimônia, como se ela não existisse- lambem a cara dos outros, soltam pum na frente das visitas sem o menor constrangimento… Enfim, são dois vagabundos que nós não soubemos educar, mas por quem nós mudamos a nossa vida: podíamos ter nos mudado para um apartamento nas vezes em que ficou difícil morar numa casa bastava “doá-los”; podíamos ter feito viagens inesquecíveis bastava tê-los deixado num canil; podíamos ter um carro decente (e limpo) bastava não deixá-los entrar nele para passear; podíamos receber todo tipo de gente na nossa casa bastava prendê-los para não incomodar os que não gostam de cachorro; podíamos viver sem rinite, bastava não deixá-los entrar em casa… Mas quem resiste à carinha ”pedinte” desse Beagle e ao charme discreto desse vira-latas? Nós não resistimos. Somos loucos por eles. E eles só querem uma coisa: carinho.  Nós também. Tão fácil ser feliz…

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Pré-conceito.

Agosto 20, 2008 · 5 Comentários

Ela é negra. O marido é branco. O filho deles, ainda bebê, é branco. A criança fica doente e não pode ir à escolinha. A avó materna, uma senhora de idade, negra, precisa ir ao posto do INSS passar por uma perícia. Leva o bebê. O médico atende a senhora e pergunta: “Que criança é essa, dona?”. Ela responde que é neto dela. E ele: “Que neto coisa nenhuma. Você seqüestrou essa criança. Cadê o documento?” E a avó: “Mas eu não ando com documento do bebê. É meu neto.” E o médico: “Onde já se viu? Uma negra dizendo que é avó desse branquinho?”   E chama os seguranças do posto. A criança é arrancada à força dos braços da avó. A avó é trancafiada num quartinho. A criança chora, debate-se no colo do segurança, depois berra ao ver a avó sendo levada. A avó grita repetindo que é avó da criança. As pessoas do posto do INSS se assustam. Alguns correm para acudir. Outros olham perplexos.

Cenas de um filme de terror?

Não.  Aconteceu hoje com a mãe de uma colega. Aqui. Aqui mesmo em São Paulo. Num posto do INSS.

Preciso comentar?

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Olim-piadas brasileiras 2008

Agosto 18, 2008 · 3 Comentários

Que me perdoem os torcedores resilientes, mas assistindo aos jogos olímpicos de Pequim, particularmente à participação do Brasil, ainda me espanto com a falta de compromisso de alguns de nossos atletas. Aliás, não só dos atletas, diga-se de passagem. Logo na transmissão da abertura, um empolgado locutor já profetizava: “Eis aí nossos atletas na China. Mas é claro que não têm nenhuma obrigação de trazer medalhas”…  Ora, como não? Afinal, o que foram fazer lá? Turismo?

Prova disso foi a entrevista concedida por uma de nossas atletas depois de uma pífia apresentação:”Ah! Eu não vim aqui pra ganhar medalha; eu cheguei na final, tá bom! Eu podia ter feito melhor (e por que não fez?!), mas estou satisfeita”. – disse ela com o ar blasê de quem não precisa disso.

Nessas horas eu fico tentada a concordar com os pessimistas quando dizem que brasileiro sempre acha que está fazendo muito… É que em seguida a gente vê as chinesas, as romenas, dando tudo de si e um pouco mais, mas ainda achando que fazem pouco. Talvez no país delas ninguém tenha que torcer contra as adversárias para que suas atletas tenham chance.

Bem… Salvaram-se pela demonstração de dignidade o judoca Eduardo Santos – que admitiu estar incompetente para derrotar o adversário, e Diego Hipólito – que soube pedir desculpas ao invés de esconder-se atrás de desculpas.

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“Sambarilove”: você ainda vai conhecer um.

Agosto 14, 2008 · 3 Comentários

Você conhece alguém capaz de discursar durante horas, empolgar toda uma platéia, fazer todo mundo sair satisfeito, sem dominar absolutamente nada do assunto? 

Você conhece alguém capaz de fazer comentários geniais sobre o último livro de José Saramago sem jamais ter lido uma linha sequer desse autor? 

Você conhece alguém que parece estar sempre trabalhando como louco, tem a imagem de quem trabalha como louco, vira uma espécie de celebridade no meio em que atua porque todos acham que trabalha como louco, sem jamais ter colocado a “mão-na-massa”? 

Se você conhece alguém assim na sua empresa, na sua família, no seu grupo social… Então você conhece um “Sambarilove” (*). 

O “Sambarilove” não é necessariamente um sujeito malvisto ou malquisto. Pelo contrário, o “Sambarilove” tem boa imagem, é falante, boa praça, antenado com a moda e com os tititis do momento, puxa o saco só de quem vale a pena (e o faz com uma naturalidade espantosa), circula por todos os eventos que importam, conhece gente famosa (ou pelo menos diz que conhece) e tem um networking invejável, tanto que está sempre em posição de destaque no mercado, na família, no clube, no time.  

Conheci um “Sambarilove” legítimo que colecionava frases de vários críticos sobre determinados temas só para, mudando uma palavrinha aqui outra ali, emitir opiniões sobre o assunto em determinados eventos. Um outro “Sambarilove” mantinha em seu apartamento uma coleção de resumos de livros famosos com frases pinçadas a dedo em cada um deles só para citá-las nos eventos que freqüentava. Aliás, como diz uma amiga minha, o “Sambarilove” é o rei do pocket!

No ambiente corporativo, é considerado um líder nato. Contrata sempre os melhores profissionais (por razões óbvias) e tem a equipe mais produtiva e competente da empresa, cujos resultados são invariavelmente acima da média. Ou seja: ele não precisa fazer rigorosamente nada!

Aliás, pensando bem, sua grande virtude está justamente nisso: em não atrapalhar, já que não pode ajudar.  

(*) O nome “Sambarilove” refere-se ao personagem do comediante David Pinheiro, do programa de televisão “Escolinha do Professor Raimundo”, que era um puxa-saco incorrigível e sempre conseguia tirar as melhores notas, sem nunca estudar.

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The Story of Stuff

Julho 22, 2008 · 2 Comentários

Ainda não tinha assistido a esse vídeo de apenas 20 minutos da ativista e ambientalista Annie Leonard. Se eu já tinha ficado impressionada com “The Corporation”, agora fiquei assombrada especialmente com os números que nos acordam para a “insustentabilidade” do nosso planeta dominado por um consumismo, digamos, ”planejado”.

Uma frase chamou-me à atenção pois define perfeitamente o objetivo da publicidade nesse contexto de horror, que é ”o de nos tornar infelizes com o que temos”. E então compramos, jogamos fora, produzimos lixo, compramos, jogamos fora, produzimos lixo, compramos, jogamos fora… Indefinidamente, infinitamente, incessantemente, incontrolavelmente… Como se os recursos do nosso planeta fossem inesgotáveis.

E aí, lembrei-me de Paul Valèry, poeta e pensador francês, num texto que li no prefácio do livro “Modernidade Líqüida”, de Zygmunt Bauman:

Interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados… Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos.”

E olhe que Valèry ainda não tinha visto nada…

Nem eu.

Para assistir ao vídeo “The Story of Stuff”:

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