Relatos ao Pé da Letra

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Parábola.

Novembro 24, 2009 · 1 Comentário

“O Rei e a Omelete” é uma parábola atribuída ao pensador alemão Walter Benjamin, morto em 1940. E é curioso como essa estória é publicada e re-publicada dezenas de vezes e eu acabo sempre me encontrando e me reencontrando com ela em diferentes situações da minha vida, talvez para me lembrar de que cada coisa que vivi foi vivida no seu tempo exato.

Pois bem. Esta parábola, que reproduzo aqui tal como me lembro dela em suas infinitas versões, e por isso perdoem-me se omito algum detalhe, conta a estória de um rei muito rico, mas infeliz e melancólico. Um dia ele manda chamar seu cozinheiro e faz o seguinte pedido a ele:

- Eu confio muito em você, que tem trabalhado pra mim com fidelidade e preparado pratos maravilhosos que todos saboreiam com muito prazer. Mas o que vou lhe pedir agora vai me dar a prova máxima do seu talento como cozinheiro. Quero que prepare para mim uma omelete de amoras igual à que comi 50 anos atrás, quando eu ainda era um garotinho. Naquela ocasião, nosso reino estava em guerra contra o reino vizinho, que acabou vencendo uma batalha e eu e meu pai tivemos que fugir. Viajamos muitos e muitos dias e chegamos a uma floresta muito escura onde ficamos vagando com fome e fatigados. Pensávamos que íamos morrer, quando finalmente fomos acolhidos por uma velhinha que morava numa choupana bem humilde no meio da floresta. Ela nos convidou a descansar e preparou uma omelete de amoras para nos alimentar. Quando comi o primeiro pedaço, senti um alívio enorme e a esperança se renovou em meu coração. É essa omelete deliciosa que quero que você prepare, pois quero novamente sentir o que senti naquele momento.

O cozinheiro, então, disse ao rei: Majestade, eu sei bem como preparar uma omelete de amoras. Posso fazer a melhor que este reino já provou. Mas não conseguirei agradar o vosso paladar. Pois eu teria que temperá-la com tudo aquilo que naquela época vossa majestade sentiu: o perigo iminente, o medo que congela, o calor do fogo que alivia, a doçura do descanso depois da fadiga, o presente inseguro e o futuro incerto. E isso não é possível. O rei entendeu a mensagem e livrou o cozinheiro da impraticável incumbência.

Independentemente de gostar ou não de parábolas, esta especificamente me toca e me diz que o melhor está sempre por vir. Até para que mais à frente eu sinta de novo vontade de ser feliz… E já estar feliz.

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Beleza.

Novembro 8, 2009 · 7 Comentários

A cineasta Lina Wertmüller, de quem já falei aqui, disse certa vez que a beleza é uma grande dádiva para a humanidade. De fato. E nem precisa ir muito longe para constatar. É só a gente começar a observar à nossa volta, em nosso dia-a-dia.

revoada por Jairo BDPor exemplo: os guarás  púrpuras em revoada no arquipélago de Marajó terra do meu falecido pai, a vista indescritível da janela do meu quarto em Santana de Parnaíba, a carinha perfeita do meu Beagle Guri, a comida colorida do restaurante Shiguê, o rosto inacreditável da Luciana Coelho que senta bem na minha frente dia todo no trabalho, o sorriso da Sueli Monteiro, minha amiga de todos os dias, a pintura de Matisse em exposição na pinacoteca, a voz e as músicas de Amy Winehouse que eu ouço sem parar, o gato Elvis siamês degradê da minha amiga Nádia, as louças Versace com o logotipo de cabeça de medusa do meu amigo César, o cheiro das damas da noite da chácara da Ana Lúcia e do Edson no interior de São Paulo e do perfume Jador que eu gosto de usar, as locações dos filmes Mamma Mia, Sob o Sol da Toscana e todos do Zefirelli que eu adoro rever, os banheiros rústicos do restaurante Beco do Bartô no Paraíso em São Paulo,  o rosto e o corpo do meu amigo Diego, os poemas de Mário Quintana, e… Claro, o meu amigo Alex – antes que ele chegue até o final deste post e me mate por não tê-lo incluído na lista.

Foto: Revoada, Jairo BD.

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Mudanças.

Outubro 22, 2009 · Deixe um comentário

Já repararam como cada vez mais as pessoas quase que se obrigam a inserir um gerúndio nas coisas que dizem?

“Estou morando em São Paulo.”

“Estou trabalhando na empresa tal.”

“Estou ficando com fulano de tal.”

Não faz nem meio século e tudo estava como que… Parado no tempo. Nossos pais, os pais dos nossos amigos, os pais dos nossos conhecidos, todos moraram a vida toda na mesma casa, viveram a vida toda na mesma cidade, trabalharam a vida toda na mesma empresa e ficaram casados a vida toda com a mesma pessoa. Tempos modernos!

E hoje? Você conhece alguém que já mudou vinte vezes de residência, dez vezes de trabalho e casou-se mais que uma vez em menos de meio século? Eu conheço. Tempos pós-modernos!

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Acaso.

Setembro 9, 2009 · 1 Comentário

Comecei a ler “O Andar do Bêbado” quase por acaso. Ou talvez para tentar entender o que leva uma pessoa, em certo ponto da vida, a fazer um curso de Ciências Atuariais. Aliás, não por acaso, tenho muitos amigos atuários.

O livro do físico americano Leonard Mlodinow trata das probabilidades (coisa de atuário?!). Mais especificamente de como o acaso comanda nossas vidas e de quanto não nos damos conta disso apenas porque nosso cérebro, ao menos o hemisfério esquerdo dele, fica tentando encontrar um padrão em todas as situações, mesmo quando não existe um padrão. Parece que não fomos mesmo programados para eventos fortuitos, para a aleatoriedade, para a incerteza .

Talvez seja por isso que não damos à Sorte o crédito pelos nossos sucessos nem ao acaso o fato de estarmos num e não noutro caminho. Pelo contrário, temos certeza de que fomos nós que escolhemos nosso destino ao fazermos escolhas.

O livro termina com uma saída: “Minha mãe me ensinou a aceitar os eventos fortuitos que nos causam sofrimentos (…) E a apreciar a ausência das doenças, da guerra, da fome e dos acidentes que não – ou ainda não – nos acometeram.”

É… Eu sabia que tinha uma boa explicação para eu ter ficado hoje sete horas dentro de um carro tentando chegar em São Paulo debaixo de uma interminável tempestade.

Mais um evento fortuito que me livrou de algo pior?

Quem sabe?

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Invisíveis.

Agosto 25, 2009 · 5 Comentários

Não começa logo no dia seguinte.

Começa de repente.

De repente você está em casa, seu celular para de tocar, sua caixa de emails fica vazia, você liga e não atendem suas ligações. Se perguntam de onde você é, você não sabe dizer.

De repente sobra tempo para sentir-se inútil, invisível, substituível.

Mas também é de repente que você começa a perceber que sabe muito bem quem você  é, de onde é e o que quer para a sua vida. Porque descobre que a sua visibilidade, o seu sobrenome de fato está na sua carteira de identidade e não na sua carteira de trabalho.

É só uma questão de tempo.

P.S: aos meus muitos amigos que estão temporariamente “invisíveis”, mas que sabem que são insubstituíveis. E que tudo na vida é só uma questão… De tempo!

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Cinismo e idealismo.

Julho 20, 2009 · 1 Comentário

Esses dias surpreendi um conhecido aparentemente insatisfeito com o mundo de aparências em que vivemos, aparentemente genial, aparentemente excêntrico… “Relativizando valores e os tratando como meios de atingir seus objetivos” – como bem definiu o ex-secretário de Estado americano, Henry Kissinger em frase sobre estadistas publicada esta semana em algumas revistas: “Ao contrário dos cínicos – disse ele – os estadistas baseiam suas decisões práticas em convicções morais”.

Estavam bem ali na minha frente todas as evidências do comodismo e da impotência quase cômica que caracterizam os cínicos. Senti-me ridícula no meu idealismo fora de época. Não que ser cínico o torne melhor ou pior que eu. Apenas o torna diferente de mim.

E talvez (quem sabe?) o que nos torne diferentes seja apenas o fato dele “conhecer o preço de todas as coisas, mesmo não lhes conhecendo o valor”, como bem lembrou o genial Oscar Wilde, e eu de dar importância demais a coisas que sei que valem pouco.

Só isso.

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Estamos bem.

Julho 7, 2009 · 1 Comentário

Esses dias, ao ser contatada por uma amiga de adolescência através do Orkut, viajei trinta anos atrás em questão de segundos. Fico pensando que até para o passado a pós-modernidade nos leva com velocidade.     

     estamos-todos-bem1        Estamos todos bem        stano05

E aí, não sei bem o porquê, lembrei-me de um filme a que assisti na década de 90 e que se chama Stanno Tutti bene ou Estamos todos bem, de Giuseppe Tornatore, o mesmo que dirigiu Cinema Paradiso. Com trilha sonora magnífica de Ennio Morricone, é a história de Matteo Scuro, um siciliano funcionário de cartório – magistralmente interpretado por Marcello Mastroianni – já viúvo, que estranha que naquele ano os cinco filhos não foram visitá-lo como sempre fizeram. Decide, então, ir ele próprio desta vez fazer uma visita-supresa a eles. Como cada filho mora numa cidade diferente, o personagem acaba fazendo, de trem, uma viagem dos sonhos através da beleza incomensurável de cidades como Nápoles, Roma, Milão, Florença e Turim e vivendo uma cena que jamais esqueci: de um alce parado no meio da estrada, impedindo o trânsito e deixando as pessoas atônitas com sua imponência.

A cada nova cidade que chega, o personagem Matteo se depara, desiludido, com os problemas dos filhos que ele julgava “estarem todos bem”. O final é emocionante.

Mas o que me fez lembrar do filme é esse fato surpreendente de reencontrar pessoas que não se vê há tanto tempo mas que no momento do reencontro “parece que foi ontem”. Ainda não a encontrei. Mas quando encontrar, “queremos estar todos bem”, não é mesmo?

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Vida de artista.

Junho 27, 2009 · 4 Comentários

Sem querer desmerecer o talento do artista – e o artista, neste caso, tinha talento – mas o fato é que há menos de dois dias CDs e DVDs de Michael Jackson permaneciam “encalhados” nas grandes lojas de varejo do país. Assim como “encalhou” o leilão recente de objetos pessoais do cantor, no qual constava um quadro em que ele posava de rei.

Mas nada como o poder ressuscitador da midia para colocar um ídolo decadente novamente em cena e no topo das paradas de sucesso.

Pena que para isso, em muitos casos, o artista tenha que morrer. Na maioria das vezes, antes do final.

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Lina.

Junho 17, 2009 · Deixe um comentário

Nascida Arcangela Felice Assunta Job Wertmüller von Elgg Espanol von Brauchich, logo depois da ponte do rio Tibre, em Roma, a cineasta Lina Wertmüller  ficou conhecida por ter sido assistente de Federico Fellini no filme Oito e Meio, mas também, e sobretudo, por filmes como Pasqualino Sete Belezas, Mimi, O Metalúrgico, Irmão Sol Irmã Lua, Destino Insólito dentre outros, todos  voltados para a valorização da cultura de seu país.

Anos atrás ela deu uma entrevista num programa de televisão brasileiro chamado Conexão Roberto D´Àvila, que de tão atual pode ser assistida uma década depois sem que percebamos o passar do tempo. Na entrevista, Lina fala de valores culturais, cinema,  moda,  arte, da sua querida Itália e, acima de tudo, fala daquilo que foi sempre a essência de seus filmes, a beleza.

Sobre o cinema americano: “Não permite confronto com outras culturas”.

Sobre a moda: ” Há vinte anos podíamos identificar que época era a partir da moda. Agora há cada vez mais desfiles, mas na verdade a moda parou. A época não se exprime mais através da moda. Tornou-se um patchwork.”

Sobre Cultura: “Muita coisa é produzida, muita coisa é anunciada, mas tudo é bastante drogado contra a criatividade. Quanto mais se faz comércio, quanto mais gritam as TVs, menos se defende a qualidade da criatividade humana.”

Sobre o século XX: “O século XX correspondeu a quase meio milênio por tudo o que aconteceu. A Ciência fez com que tudo se acelerasse.”

Sobre a sustentabilidade do planeta: “Somos a flor do planeta, a maravilha, a arte, a cultura, a beleza, a música, a inteligência ou somos um câncer? Não somos capazes nem de conservar a harmonia da terra.”

Sobre valores culturais: “O futuro tem um coração antigo.”

Sobre a vocação da Itália: ” Somos um país afortunado. Na Itália estão mais de 70% das obras de arte do mundo. Sempre tivemos no DNA essa capacidade de fazer arte. A nossa história gerou muita beleza. Quando a Itália era dividida em pequenos reinos, cada duque, rei ou príncipe queria mostrar o seu poder através da beleza. Isso nos deu um patrimônio maravilhoso. A Itália é o país de muitos renascimentos. Por isso, acho que devemos hoje em dia apostar novamente na beleza.”

E, enfim, sobre a beleza: “Quando um homem ou um país se torna rico, quando satisfaz as suas necessidades primárias, a fome, a sede, o calor, o frio, o que pode comprar com o que  ganha? A beleza! É preciso que as novas gerações percebam isso porque trata-se de uma grande dádiva para a humanidade.”

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Outra vez, felicidade.

Junho 11, 2009 · 1 Comentário

E revisitando García Márquez, desta vez em Do Amor e Outros Demônios, livro com o qual fui gentilmente presenteada por um amigo, reencontro uma curiosa definição de felicidade.

Sierva María de Todos Los Ángeles, personagem de imensa cabeleira “que se arrastava como a cauda de um vestido de noiva” e cuja essência só lendo o livro para entender, estava doente, com suspeita de raiva, após ter sido mordida por um cachorro. Filha única de um marquês, este decidira que a menina iria morrer em casa. O médico que acompanhava o caso, entendendo a decisão do pai, deu assim a sua resposta à pergunta do que fazer enquanto isso:

“Enquanto isso” – disse o médico – “Toquem música, encham a casa de flores, façam cantar os passarinhos, levem-na para ver o pôr-do-sol no mar, dêem-lhe tudo o que possa fazê-la feliz (…)  Não há remédio que cure o que a felicidade não cura.”

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