Relatos ao Pé da Letra

Entradas categorizadas em ‘Dicas de bons filmes’

Estamos bem.

Julho 7, 2009 · 1 Comentário

Esses dias, ao ser contatada por uma amiga de adolescência através do Orkut, viajei trinta anos atrás em questão de segundos. Fico pensando que até para o passado a pós-modernidade nos leva com velocidade.     

     estamos-todos-bem1        Estamos todos bem        stano05

E aí, não sei bem o porquê, lembrei-me de um filme a que assisti na década de 90 e que se chama Stanno Tutti bene ou Estamos todos bem, de Giuseppe Tornatore, o mesmo que dirigiu Cinema Paradiso. Com trilha sonora magnífica de Ennio Morricone, é a história de Matteo Scuro, um siciliano funcionário de cartório – magistralmente interpretado por Marcello Mastroianni – já viúvo, que estranha que naquele ano os cinco filhos não foram visitá-lo como sempre fizeram. Decide, então, ir ele próprio desta vez fazer uma visita-supresa a eles. Como cada filho mora numa cidade diferente, o personagem acaba fazendo, de trem, uma viagem dos sonhos através da beleza incomensurável de cidades como Nápoles, Roma, Milão, Florença e Turim e vivendo uma cena que jamais esqueci: de um alce parado no meio da estrada, impedindo o trânsito e deixando as pessoas atônitas com sua imponência.

A cada nova cidade que chega, o personagem Matteo se depara, desiludido, com os problemas dos filhos que ele julgava “estarem todos bem”. O final é emocionante.

Mas o que me fez lembrar do filme é esse fato surpreendente de reencontrar pessoas que não se vê há tanto tempo mas que no momento do reencontro “parece que foi ontem”. Ainda não a encontrei. Mas quando encontrar, “queremos estar todos bem”, não é mesmo?

Categorias: Dicas de bons filmes · Reflexões

Lina.

Junho 17, 2009 · Deixe um comentário

Nascida Arcangela Felice Assunta Job Wertmüller von Elgg Espanol von Brauchich, logo depois da ponte do rio Tibre, em Roma, a cineasta Lina Wertmüller  ficou conhecida por ter sido assistente de Federico Fellini no filme Oito e Meio, mas também, e sobretudo, por filmes como Pasqualino Sete Belezas, Mimi, O Metalúrgico, Irmão Sol Irmã Lua, Destino Insólito dentre outros, todos  voltados para a valorização da cultura de seu país.

Anos atrás ela deu uma entrevista num programa de televisão brasileiro chamado Conexão Roberto D´Àvila, que de tão atual pode ser assistida uma década depois sem que percebamos o passar do tempo. Na entrevista, Lina fala de valores culturais, cinema,  moda,  arte, da sua querida Itália e, acima de tudo, fala daquilo que foi sempre a essência de seus filmes, a beleza.

Sobre o cinema americano: “Não permite confronto com outras culturas”.

Sobre a moda: ” Há vinte anos podíamos identificar que época era a partir da moda. Agora há cada vez mais desfiles, mas na verdade a moda parou. A época não se exprime mais através da moda. Tornou-se um patchwork.”

Sobre Cultura: “Muita coisa é produzida, muita coisa é anunciada, mas tudo é bastante drogado contra a criatividade. Quanto mais se faz comércio, quanto mais gritam as TVs, menos se defende a qualidade da criatividade humana.”

Sobre o século XX: “O século XX correspondeu a quase meio milênio por tudo o que aconteceu. A Ciência fez com que tudo se acelerasse.”

Sobre a sustentabilidade do planeta: “Somos a flor do planeta, a maravilha, a arte, a cultura, a beleza, a música, a inteligência ou somos um câncer? Não somos capazes nem de conservar a harmonia da terra.”

Sobre valores culturais: “O futuro tem um coração antigo.”

Sobre a vocação da Itália: ” Somos um país afortunado. Na Itália estão mais de 70% das obras de arte do mundo. Sempre tivemos no DNA essa capacidade de fazer arte. A nossa história gerou muita beleza. Quando a Itália era dividida em pequenos reinos, cada duque, rei ou príncipe queria mostrar o seu poder através da beleza. Isso nos deu um patrimônio maravilhoso. A Itália é o país de muitos renascimentos. Por isso, acho que devemos hoje em dia apostar novamente na beleza.”

E, enfim, sobre a beleza: “Quando um homem ou um país se torna rico, quando satisfaz as suas necessidades primárias, a fome, a sede, o calor, o frio, o que pode comprar com o que  ganha? A beleza! É preciso que as novas gerações percebam isso porque trata-se de uma grande dádiva para a humanidade.”

Categorias: Dicas de bons filmes · Reflexões

Visão crítica.

Fevereiro 4, 2009 · Deixe um comentário

Como informou meu professor de pós-modernidade numa aula da PUC, “Criticar é fissurar o consenso” (citando Bauman?!? Não me lembro…).

É… Eu acho realmente saudável pensar criticamente sobre todas as coisas. Porque abre os olhos, expande a mente e os sentidos, alivia a alma.

Então, que tal uma espiadinha crítica na nossa realidade?

Descubra o lado nada obscuro do Capitalismo assistindo a “The Corporation” EUA, 2003. 145 mins. Direção: Jennifer Abbott e Mark Achbar. Com participações de: Noam Chomsky, Steve Wilson, Jane Akre, Naomi Klein, Michael Moore, Vandana Shiva. Site oficial:www.thecorporation.com

Leia sem a intermediação do computador “Inclusão digital: uma visão crítica”, Brasil, 2009. Autor: Edilson Cazelotto, Editora SENAC/SP.

Comece a entender a gênese dessa crise mundial, num tempo-espaço em que o Estado não tem como legislar sobre o mercado e a tecnologia ‘O Trabalho das Nacões”, EUA, 1994. Autor: Robert B. Reich, Editora Educator.

Acesse esses sites que vão contra a maioria das coisas que a gente faz cotidianamente:

www.slowmovement.com

www.consciencia.org/krisis.shtml

www.simplicidade.net

 www.permear.org.br

Pense nisso. Você não precisa concordar com tudo.

E pode criticar.

Categorias: Dicas · Dicas de boa literatura · Dicas de bons filmes

Mamma Mia

Janeiro 17, 2009 · 1 Comentário

Mamma Mia é um musical. Então, pra começar, se você não gosta de musicais, nem se dê ao trabalho de ir ao cinema ou de pegar o DVD na locadora. Mamma Mia está longe de ser um clássico. É só um daqueles filmes que deveriam ficar permanentemente em cartaz num cinema perto de você. Só pra ir assistir naqueles dias de baixo astral. É um santo remédio. Leva qualquer TPM pro espaço! O filme é tão alto astral que a gente até releva os problemas de iluminação, as vozes não lá muito encantadoras dos atores, enfim… Mas vale para ver Meryl Streep se divertindo.

Ah, mas a música é do Abba… E daí? É uma delícia! Pra não pensar em nada mesmo. A história é pra lá de manjada, mas é pura diversão: antes de se casar, uma garota quer conhecer seu pai verdadeiro para que ele a leve ao altar. E sem a mãe saber, convida três ex-namorados desta para a festa de casamento… Na Grécia! Não é tudo? O resto é muita agitação, mulheres falando, falando, falando, cantando, cantando, cantando e dançando, dançando, dançando o tempo todo do filme.

Parece tortura? Não é.  Basta assistir “desarmado”.

P.S. Ah! Se pegar o DVD, assista ao making off. É imperdível!

Categorias: Dicas de bons filmes

Cinema.

Agosto 24, 2008 · 1 Comentário

Três magias lembram-me todos os dias de que sou humana: cinema, música e literatura, nessa ordem. Por isso, sempre que posso, assisto a esses filmes – não necessariamente nessa ordem.

De Bob Reiner: Antes de Partir. De Jean Jacques Annaud: a Guerra do Fogo. De Michelangelo Antonioni: Além das Nuvens. De Hal Ashby: Muito além do Jardim. De Jon Annet: Tomates Verdes Fritos. De Hector Babenco: Ironweed. De Fábio Barreto: O Quatrilho. De Bruce Beresford: Conduzindo Miss Daisy. De Bernardo Bertolucci: O Último Imperador. De Kenneth Brannag: Para o Resto de Nossas Vidas. De Martin Brest: Perfume de Mulher. De Luís Bunüel: A Bela da Tarde. De Tim Burton: Edward Mãos de Tesoura. De Jane Champion: O Piano. De Frank Capra: A Felicidade Não se Compra e Horizonte Perdido. De Leos Carx: Os Amantes de Pont-Neuf. De Liliana Cavani: O Porteiro da Noite. De John Cromwell: Servidão Humana. De Vitorio de Sica: Ladrões de Bicicleta. De Jonathan Demme: Filadelphia. De  Cacá Diegues: Chuvas de Verão. De Clint Eastwood: As Pontes de Madison. De Rainer Werner Fassbinder: Lili Marlene (música inesquecível). De Federico Fellini: Amarcord (meu preferido), A Doce Vida, E La Nave Va, Fellini Oito e Meio, Noites de Cabíria e Julieta dos Espíritos. De Milos Forman: Um Estranho no Ninho. De John Frankenheimer: Sob o Domínio do Mal. De Stephen Frears: Ligações Perigosas. De Lewis Gilbert: O Despertar de Rita e Shirley Valentine. De Lasse Hallströn: Minha Vida de Cachorro.  De James Ivory: Vestígios do Dia.  De Stanley Kubrick: 2001 Uma Odisséia no Espaço e O iluminado. De Fritz Lang: Metrópolis e O Vampiro de Dusseldorf (atenção ao julgamento dos mendigos). De David Lean: A Filha de Ryan. De Ang Lee: Razão e Sensibilidade. De Claude Lelouch: Um Homem, Uma Mulher e Retratos da Vida (maravilhoso!). De Sérgio Leone: Era uma vez na América. De David Lynch: Veludo Azul. De Louis Malle: Adeus Meninos e Perdas e Danos. De Leo Macarey: Tarde Demais para Esquecer. De Anthony Minghella: O Paciente Inglês. De Mário Monicelli: Parente é Serpente. De Alan J. Pakula:A Escolha de Sofia. De Alan Parker: Asas da Liberdade, Bem-vindos ao Paraíso, Coração Satânico, O Expresso da Meia Noite e The Wall. De Michael Radford: O Carteiro e o Poeta. De Valter Salles Jr: Central do Brasil. De Nélson Pereira dos Santos: Memórias do Cárcere. De Carlos Saura: Ana e os Lobos, Bodas de Sangue, Carmem, Cria Cuervos e Mamãe Faz Cem Anos. De Fred Schepisi: Seis Graus de Separação. De Joel Schumacher: O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (lindo). De Ettore Scola: Um Dia Muito especial (fabuloso!) e Splendor. De Martin Scorcese: New York, New York. De Ridley Scott: Blade Runner (atenção à última frase do andróide sobre a efemeridade da vida).  De Steven Spielberg: A Cor Púrpura e A Lista de Schindler. De Jeannot Szwarc: Em Algum Lugar do Passado. De Jacques Tati: Meu Tio. De Giuseppe Tornatore: Cinema Paradiso e Estamos Todos Bem (atenção à cena do alce na estrada). De Luchino Visconti: Morte em Veneza. De Peter Weir: Sociedade dos Poetas Mortos. De Wim Wenders: Asas do Desejo e Tão Longe Tão Perto. De Robert Zemeckis: Forrest Gump. De  Fred Zinnemann: Julia.  E todos, todos, de Ingmar Bergman: Cenas de Um Casamento, Da Vida das Marionetes, Diário de uma Filmagem, Fanny & Alexandre, Gritos e Sussurros, A Hora do Amor, Morangos Silvestres, Persona (inesquecível), O Ovo da Serpente, O Sétimo Selo (obrigatório!), Sonata de Outono, Sorrisos de Uma Noite de Verão e outros.

Categorias: Dicas de bons filmes

O incrível destino de Zadig e Amèlie Poulain

Julho 27, 2008 · 1 Comentário

 O que podem ter em comum o babilônio Zadig, personagem de Voltaire no livro “Zadig, ou O destino” e a garçonete francesa Amélie Poulain, personagem do filme de Jean-Pierre Jeunet, que estreou em 2001 com o nome de “O fabuloso destino de Amèlie Poulain” ? 

Resposta? O destino.

Zadig é um cidadão que vive às voltas com as peças que o destino lhe prega. Sua vida é feita de altos e baixos, de evoluções e involuções, de vaivéns, de construções e destruições, de sortes e azares, de alegrias e tristezas, de perdas e ganhos, enfim, daquilo que é feita a vida de todos nós. O livro trata do imponderável, do inesperado, do que afeta ricos e pobres, bons e maus, indistintamente.  

 

Amèlie, por sua vez, é uma introvertida garçonete criada na periferia de Paris cujo único contato com o exterior é o trabalho atrás de um balcão. Um dia, ao descobrir uma caixinha cheia de lembranças de infância, decide procurar o dono  que, ao recebê-la de volta, tem a vida transformada. É aí que Amèlie descobre sua vocação para ajudar os outros e intervir na vida das pessoas, como o próprio destino. E passa a encarná-lo, em segredo, intervindo e transformando, de fato, a vida das outras pessoas, com alguns pequenos gestos.

 

 

Todas as vezes que me senti no absoluto controle da minha vida, reli “Zadig, ou O Destino”  para sair da “zona de conforto” e me lembrar de que o que define a vida da gente é a incerteza.

Agora,  todas as vezes que eu achar que perdi o controle de uma situação, vou rever “O fabuloso destino de Amèlie Poulain”  para me lembrar de que algumas vezes com um simples gesto eu posso, sim, mudar o destino dos outros. Assim como os outros podem mudar o meu destino.

O destino, afinal… São os outros?

 

Obs: de Voltaire, leia também “Cândido, ou O Otimismo” em que o filósofo critica o otimismo “Poliana”. Cândido é um ingênuo que viaja o mundo sempre às voltas com o mal e a ganância do ser humano. 

Categorias: Dicas de boa literatura · Dicas de bons filmes · Reflexões

The Story of Stuff

Julho 22, 2008 · 2 Comentários

Ainda não tinha assistido a esse vídeo de apenas 20 minutos da ativista e ambientalista Annie Leonard. Se eu já tinha ficado impressionada com “The Corporation”, agora fiquei assombrada especialmente com os números que nos acordam para a “insustentabilidade” do nosso planeta dominado por um consumismo, digamos, ”planejado”.

Uma frase chamou-me à atenção pois define perfeitamente o objetivo da publicidade nesse contexto de horror, que é ”o de nos tornar infelizes com o que temos”. E então compramos, jogamos fora, produzimos lixo, compramos, jogamos fora, produzimos lixo, compramos, jogamos fora… Indefinidamente, infinitamente, incessantemente, incontrolavelmente… Como se os recursos do nosso planeta fossem inesgotáveis.

E aí, lembrei-me de Paul Valèry, poeta e pensador francês, num texto que li no prefácio do livro “Modernidade Líqüida”, de Zygmunt Bauman:

Interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados… Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos.”

E olhe que Valèry ainda não tinha visto nada…

Nem eu.

Para assistir ao vídeo “The Story of Stuff”:

Categorias: Dicas de bons filmes · Reflexões · Situações non-sense

Dicas de bons filmes “antigos”

Junho 22, 2008 · 3 Comentários

É difícil ter um filme preferido, mas eu tenho. É “Amarcord”, de Federico Fellini, lançado em 1973 ou 1974. Amarcord, dizem, significa “eu me lembro” ou “eu me recordo” num dialeto de Rimini, Itália.  Sempre que penso nesse filme ( eu já vi dezenas de vezes) me vem à mente a doce e nostálgica canção composta por Nino Rota. Ela me leva de volta ao filme, sempre.

A história se passa nos anos 30, numa comunidade dominada pelo fascismo, em que histórias de várias pessoas se cruzam com a história de uma família. Mas tudo do ponto de vista de uma criança/adolescente (Fellini quando jovem). Na realidade, a história não tem importância. Ao assistir, esqueça qualquer lógica e deixe-se levar pela emoção. Porque os inesquecíveis personagens desse filme fazem parte não da memória pura e simples de Fellini, mas de sua humanidade.

Depois… Já que você assistiu a um belo filme de Fellini, assista a outros, igualmente inesquecíveis, na minha opinião, nessa ordem: Oito e Meio, A Doce Vida, E La Nave Va, A Estrada da Vida, Noites de Cabíria e Julieta dos Espíritos (Giulieta Masina em atuações espetaculares), Satyricon, Ginger e Fred e o último de Felini, A Voz da Lua.

Será possível que você também não se apaixone?

Aguarde para breve a próxima dica de filme. Tenho uma lista enooorme.

Categorias: Dicas de bons filmes