Relatos ao Pé da Letra

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Felicidade.

Março 30, 2009 · Deixe um comentário

“Tudo o que dá prazer na vida é assim: a partir de um certo ponto, satura, deixa de satisfazer e começa a ficar positivamente desagradável.”

Esta e outras muitas questões são colocadas no livro “Felicidade”, do filósofo brasileiro Eduardo Giannetti, publicado em 2002 pela Editora Companhia das Letras, a partir de conversas entre quatro amigos, ex-colegas de faculdade, que  se encontram para discutir o tema. De Marx a Adam Smith, as citações formam um instigante pano de fundo para as conversas que, felizmente, não têm a pretensão de esgotar o tema.

“A felicidade seria a posse perpétua da condição de estar bem resignado, o estado pacífico e sereno de ser um tolo entre canalhas?” , “ A pobreza resulta do aumento dos desejos do homem e não da redução de suas posses?” Ou  “A busca da felicidade é uma interminável acumulação de bens de consumo?”.  “Seria o descontentamento, e não o contentamento, o motor de toda mudança?”.  Ou como dizia Mozart: “A felicidade existe apenas na nossa imaginação?”

Tudo é discutível. Mas pra mim, a questão maior do livro está em se querer sinceramente saber “Até que ponto as nossas escolhas têm conduzido à criação de condições adequadas para vidas mais livres e dignas de serem vividas?” Esse é o ponto.

Agora, se você estiver com preguiça de ler e quiser encurtar o caminho, vá à Bahia. Lá não é a terra da felicidade?

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Homo Sapiens.

Março 15, 2009 · 2 Comentários

“Existem atualmente 193 espécies de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única exceção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo Sapiens. Esta insólita e próspera espécie passa grande parte do tempo a examinar as suas mais elevadas motivações, enquanto se aplica diligentemente a ignorar as motivações fundamentais (…) Apesar de se ter tornado tão erudito, o Homo Sapiens não deixou de ser um macaco pelado e, embora tenha adquirido motivações muito requintadas, não perdeu nenhuma das mais primitivas e comezinhas. Na verdade, o Homo Sapiens andaria muito menos preocupado e sentir-se-ia muito mais satisfeito se fosse capaz de aceitar esse fato.”

Esse texto está na Introdução do livro  “O Macaco Nu”  (The Naked Ape) do zoólogo inglês Desmond Morris, publicado em 1967 mas que é mais atual que qualquer outro livro que trata sobre a natureza humana.

Não é um livro de ficção. É Ciência. Mas a gente lê como se fosse um romance. Mostra como no fundo, o nosso comportamento afetivo, social e sexual é ainda essencialmente primata. É curioso e instigante o capítulo sobre Sexo.

Agora, se você não gosta de ser visto como um animal, siga seu instinto: não leia.

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Incompletos.

Março 3, 2009 · 4 Comentários

Recebi esta mensagem do meu Coach Marcus Baptista, como sendo de autoria do escritor João Guimarães Rosa. Mas não importa de quem seja, e sim a mensagem.

“Cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que lhe é concedido. Sua tarefa nunca é maior que sua capacidade para poder cumpri-la. Ela consiste em preencher seu lugar, em servir à verdade e aos homens. Conheço meu lugar e minha tarefa; muitos homens não conhecem ou chegam a fazê-lo quando é demasiado tarde. Por isso tudo é muito simples para mim e só quero fazer justiça a esse lugar e a essa tarefa.” … Mire e veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra”. João Guimarães Rosa.

Lembrou-me aquele anjo que sussurrou no ouvido do poeta sueco Tomas Tranströmer em frente à Igreja Românica: “Não se envergonhe de ser um ser humano, orgulhe-se! Dentro de você um arco se abre atrás de outro, infinitamente. Você nunca estará completo, e é assim que tem de ser.”

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Visão crítica.

Fevereiro 4, 2009 · Deixe um comentário

Como informou meu professor de pós-modernidade numa aula da PUC, “Criticar é fissurar o consenso” (citando Bauman?!? Não me lembro…).

É… Eu acho realmente saudável pensar criticamente sobre todas as coisas. Porque abre os olhos, expande a mente e os sentidos, alivia a alma.

Então, que tal uma espiadinha crítica na nossa realidade?

Descubra o lado nada obscuro do Capitalismo assistindo a “The Corporation” EUA, 2003. 145 mins. Direção: Jennifer Abbott e Mark Achbar. Com participações de: Noam Chomsky, Steve Wilson, Jane Akre, Naomi Klein, Michael Moore, Vandana Shiva. Site oficial:www.thecorporation.com

Leia sem a intermediação do computador “Inclusão digital: uma visão crítica”, Brasil, 2009. Autor: Edilson Cazelotto, Editora SENAC/SP.

Comece a entender a gênese dessa crise mundial, num tempo-espaço em que o Estado não tem como legislar sobre o mercado e a tecnologia ‘O Trabalho das Nacões”, EUA, 1994. Autor: Robert B. Reich, Editora Educator.

Acesse esses sites que vão contra a maioria das coisas que a gente faz cotidianamente:

www.slowmovement.com

www.consciencia.org/krisis.shtml

www.simplicidade.net

 www.permear.org.br

Pense nisso. Você não precisa concordar com tudo.

E pode criticar.

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Portugal.

Novembro 16, 2008 · 4 Comentários

Aos meus antepassados (ao meu avô Joaquim) e meus amigos portugueses e filhos de portugueses João Monteiro e Mariana Gancho. Para eles, Fernando Pessoa em versos sobre “Um Império que se desfez”, mas que de alguma forma lá no fundo, ainda somos nós… Conquistando a distância e o desconhecido. Sempre!

O INFANTE

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo até o fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou, criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

NEVOEIRO

“Nem Rei nem Lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil o ser,

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer -

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

Que ânsia distante chora?

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro. É a hora….”

MAR PORTUGUÊS

“Mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por ti cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram,

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, Mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele que espelhou o céu.”

VALE A PENA SE A ALMA NÃO É PEQUENA. 

Essas poesias foram lindamente musicadas por André Luiz Oliveira nas vozes de Elba Ramalho, Gal Costa e pelo próprio André, respectivamente, num CD meio antigo chamado Mensagem, que foi remasterizado em novembro de 1996. Lembrando que na faixa “Nevoeiro” André Oliveira divide a composição com Zeba D´Al Farra. Outras poesias foram cantadas no mesmo CD por Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Zé Ramalho, Elizeth Cardoso, Moraes Moreira, Gilberto Gil, Belchior, Glória de Lurdes e Cida Moreira.  Lindo!

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Ainda Simone

Novembro 11, 2008 · 1 Comentário

Já citei neste blog o trecho de um livro de Simone de Beauvoir que eu adoro: A força das coisas. Há alguns anos ganhei do meu amigo Ney Curvo uma edição bem acabada do livro e de lá pra cá releio alguns trechos sempre que ouço muita gente falando em crise.

Há muito tempo eu descobri Simone de Beauvoir. Comecei lendo Memórias de uma moça bem-comportada, depois A força da idade e finalmente A força das coisas, onde encontrei uma escritora madura num momento em que eu estava numa idade mais ou menos entre os dois primeiros livros e não nesse.  Acho que eu não estava preparada para A Força das coisas quando o li pela primeira vez, nem para o tema da Libertação que permeia o texto, ao contrário do livro anterior, que fala muito da Guerra.

Naquela minha pouca idade, lembro-me de que eu achava que Simone já tinha dito tudo sobre si mesma nos outros dois livros. Mesmo assim, comecei a ler a primeira das 570 páginas de A força das coisas. E antes mesmo do primeiro capítulo, o livro fez todo o sentido para mim. Simone de Beauvoir escreveu A força das coisas na hora certa, como ela mesmo disse: “A indiferença, serena ou desolada, da velhice não me permitiria mais apreender o que desejo captar: aquele momento em que, na orla de um passado ainda ardente, começa o declínio. Desejei que meu sangue circulasse nessa narrativa; desejei lançar-me nela, viva ainda, e me pôr em questão, antes que todas as questões estivessem extintas. Talvez seja muito cedo ainda; mas amanhã certamente será tarde demais.”

Talvez esteja na hora de fazer algo realmente importante… Antes que seja tarde.

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Diário Mínimo

Setembro 22, 2008 · 1 Comentário

Das coisas non-sense que já li, um trecho do conto Fragmentos do livro Diário Mínimo, de Umberto Eco, está certamente entre os mais demonstrativos da estupidez humana. Num fictício Congresso Intergaláctico de Estudos Arqueológicos “a realizar-se” no ano 121 D.E. (Depois da Explosão, que tornou extinta nossa civilização como hoje a conhecemos), cientistas no futuro tentam encontrar (e entender) vestígios desta nossa “antiqüíssima” cultura. O trecho começa assim: “E recordaremos que a Ciência italiana da época devia encontrar-se indubitavelmente avançada no capítulo das pesquisas genéticas, embora esses conhecimentos fossem provavelmente utilizados segundo fins de uma prática racista da eugenia, como sugere a caixa de um pacote que deve ter contido um medicamento destinado a melhorar a raça, com a inscrição OMO (alteração do latim homo e contração na gíria do Uomo itálico) – o branco mais branco“.  Não é ótimo?

Em Diário Mínimo, além de Fragmentos, Umberto Eco apresenta-nos à Mike Bongiorno. Quem trabalha com Comunicação ainda se espanta com a atualidade do texto: “O homem rodeado pelos mass media é no fundo, entre todos os seus semelhantes, o mais respeitado: não se lhe pede nunca senão que se torne aquilo que já é. Por outras palavras, são-lhe provocados desejos estudados segundo a pauta das suas tendências“.

Mais pós- moderno que isso, impossível.

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Meursault

Setembro 14, 2008 · 1 Comentário

Sempre que leio nos jornais que alguém matou alguém e depois foi ao cinema ou foi fazer outra coisa  “como se nada tivesse acontecido”, lembro-me inevitavelmente (mas com todas as ressalvas, é claro) de Meursault, que não chorou no enterro da mãe, que matou um homem sem motivo e que ao ser inquirido pelo juiz que o condenaria à morte sobre se ele estava arrependido do seu ato, respondeu simplesmente que “Mais do que verdadeiro arrependimento, sentia um certo tédio.”

Meursault é o personagem principal de “O Estrangeiro”, primeiro romance de Albert Camus (1913-1960), escritor que explorou de forma magnífica o tema do absurdo da existência humana. 

A história de “O Estrangeiro” é tão simples que chega a ser banal. Tão banal quanto a existência de Meursault que acaba sendo executado mais pela ausência de sentimentos que pelo crime cometido.

Meursault não mente, não omite, não engana, não trapaceia. Talvez seja isso que não perdoamos nele. Essa falta de “humanidade”.

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O incrível destino de Zadig e Amèlie Poulain

Julho 27, 2008 · 1 Comentário

 O que podem ter em comum o babilônio Zadig, personagem de Voltaire no livro “Zadig, ou O destino” e a garçonete francesa Amélie Poulain, personagem do filme de Jean-Pierre Jeunet, que estreou em 2001 com o nome de “O fabuloso destino de Amèlie Poulain” ? 

Resposta? O destino.

Zadig é um cidadão que vive às voltas com as peças que o destino lhe prega. Sua vida é feita de altos e baixos, de evoluções e involuções, de vaivéns, de construções e destruições, de sortes e azares, de alegrias e tristezas, de perdas e ganhos, enfim, daquilo que é feita a vida de todos nós. O livro trata do imponderável, do inesperado, do que afeta ricos e pobres, bons e maus, indistintamente.  

 

Amèlie, por sua vez, é uma introvertida garçonete criada na periferia de Paris cujo único contato com o exterior é o trabalho atrás de um balcão. Um dia, ao descobrir uma caixinha cheia de lembranças de infância, decide procurar o dono  que, ao recebê-la de volta, tem a vida transformada. É aí que Amèlie descobre sua vocação para ajudar os outros e intervir na vida das pessoas, como o próprio destino. E passa a encarná-lo, em segredo, intervindo e transformando, de fato, a vida das outras pessoas, com alguns pequenos gestos.

 

 

Todas as vezes que me senti no absoluto controle da minha vida, reli “Zadig, ou O Destino”  para sair da “zona de conforto” e me lembrar de que o que define a vida da gente é a incerteza.

Agora,  todas as vezes que eu achar que perdi o controle de uma situação, vou rever “O fabuloso destino de Amèlie Poulain”  para me lembrar de que algumas vezes com um simples gesto eu posso, sim, mudar o destino dos outros. Assim como os outros podem mudar o meu destino.

O destino, afinal… São os outros?

 

Obs: de Voltaire, leia também “Cândido, ou O Otimismo” em que o filósofo critica o otimismo “Poliana”. Cândido é um ingênuo que viaja o mundo sempre às voltas com o mal e a ganância do ser humano. 

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Primeiras linhas… Últimas linhas – Parte 2

Julho 8, 2008 · 1 Comentário

Amigos escreveram sobre suas “primeiras linhas” nos comentários que reproduzo aqui.

De Affonso Heleno de Oliveira Fausto, o homem que “inventou” a previdência privada no Brasil:

  • “Primeiro dia de aula hoje…” Cuore (Coração) de Edmundo D´Amici.
  • “Era em Megara, subúrbio (bairro) de Cartago, nos jardins de Amilcar… ;) Salambô – Gustave Flaubert.

De Alessandro Vasconcellos, que sabe tudo de inglês… E de português também (como se pode notar a seguir):

“Era uma vez… ” – Sítio do pica-pau-amarelo, de Monteiro Lobato.

E, por fim, eu me lembrei de uma primeira frase que não devia ter me esquecido:

“No princípio criou Deus o céu e a terra.” Da Bíblia Sagrada.

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