Li neste final de semana, numa matéria sobre violência no trânsito, as seguintes palavras de um entregador de pizza fotografado em pose imponente sobre sua motocicleta: “Se eu estiver certo, persigo o motorista e vou até o fim. Já arranquei uns três retrovisores”(Veja S. Paulo, Ed. 2123 de 29/07/09).
Afora imagens espantosas de violência entre motoristas, essa frase do entregador de pizza ficou na minha cabeça e provavelmente na de muitas pessoas que leram a reportagem, por um motivo igualmente espantoso: o de que é (ou parece que é) plenamente natural dar uma entrevista a um jornalista, afirmando que se vai cometer uma violência sem nem se preocupar com as conseqüências. Talvez porque já vivamos numa sociedade que não pune, mas tolera e até incentiva tudo o que é violento. Para muitos, provavelmente esse entregador de pizza é o “garoto esperto que não leva desaforo pra casa”. Para outros, é a próxima vítima de seu próprio instinto porque mais dia menos dia ele vai encontrar pela frente alguém ainda pior que ele.
Para mim, fica só a sensação de que estamos cada vez mais nos conduzindo pela lei de talião, aquela que prescreve ao transgressor pena igual ao crime que praticou, princípio que ainda é utilizado em muitos países do Oriente. Aqui, lamentavelmente acrescido de uma boa dose de cruel banalidade.
Pobre de nossa sociedade… Pobre de nós.
Categorias: Uncategorized
Esses dias, ao ser contatada por uma amiga de adolescência através do Orkut, viajei trinta anos atrás em questão de segundos. Fico pensando que até para o passado a pós-modernidade nos leva com velocidade.

E aí, não sei bem o porquê, lembrei-me de um filme a que assisti na década de 90 e que se chama Stanno Tutti bene ou Estamos todos bem, de Giuseppe Tornatore, o mesmo que dirigiu Cinema Paradiso. Com trilha sonora magnífica de Ennio Morricone, é a história de Matteo Scuro, um siciliano funcionário de cartório – magistralmente interpretado por Marcello Mastroianni – já viúvo, que estranha que naquele ano os cinco filhos não foram visitá-lo como sempre fizeram. Decide, então, ir ele próprio desta vez fazer uma visita-supresa a eles. Como cada filho mora numa cidade diferente, o personagem acaba fazendo, de trem, uma viagem dos sonhos através da beleza incomensurável de cidades como Nápoles, Roma, Milão, Florença e Turim e vivendo uma cena que jamais esqueci: de um alce parado no meio da estrada, impedindo o trânsito e deixando as pessoas atônitas com sua imponência.
A cada nova cidade que chega, o personagem Matteo se depara, desiludido, com os problemas dos filhos que ele julgava “estarem todos bem”. O final é emocionante.
Mas o que me fez lembrar do filme é esse fato surpreendente de reencontrar pessoas que não se vê há tanto tempo mas que no momento do reencontro “parece que foi ontem”. Ainda não a encontrei. Mas quando encontrar, “queremos estar todos bem”, não é mesmo?
Categorias: Dicas de bons filmes · Reflexões