A Socorro era aquele tipo de pessoa que diz a verdade doa a quem doer. E como doía ouvir o que a gente sabia que ia doer ouvir. Mas ela dizia com todas as letras, no tom e olhar cruelmente exatos. Como Sean Connnery no filme Corações Apaixonados, às vezes tínhamos vontade de implorar: “Não me olhe com esse tom de voz”.
Muitas vezes exagerava. Mas se você tivesse a mínima desconfiança de ter errado no modelito escolhido para ir ao trabalho, ela te dava a certeza de que tinha mesmo. Portanto, se você foi vestida “como um sabiá”, era isso que ia ouvir se pedisse a opinião dela.
A Socorro era meio ríspida, meio generosa, meio indiferente, meio ácida, meio doce… Humana, enfim. E não se envergonhava de ser. Pelo contrário: fazia questão de que nós nos víssemos e nos sentíssemos humanos, através dela. Tinha a pretensão de colocar a todos no seu devido lugar.
Sonhei com ela noite passada. E lembrei-me do telefone tocando de madrugada com a voz da notícia que eu não queria receber. O câncer a tinha vencido. A ela, que eu achava invencível.
Ainda me emociono ao lembrar da sua voz já fraca, um dia antes de partir, me sussurrando quando eu lhe perguntei de onde ela tirava tanta força…
“É que eu tenho… A… migos…” . Foram as últimas palavras que ouvi dela.
Saudade de você, Socorro.
8 respostas Até agora ↓
Esther Maria Barbosa Motta // Abril 19, 2009 às 12:45 am |
É … e a vida segue, para nós e talvez… para ela tb, quem sabe… O fato é que, certas pessoas, se “atrevem” a marcar nossas vidas para sempre com suas presenças. Deixam saudades… mtas… Elas são insubstituíveis! Algo peculiar delas fica em nós, o tempo passa, e vez por outra, as lembranças invadem nossos pensamentos, sentimentos… emocionando-nos. Bjs, Esther.
Silvio // Abril 19, 2009 às 11:52 am |
Doce/Ácida Socorro … ótimas lembranças da amiga querida, sempre me ajudou muito. Saudades também. Bjs Silvio
Milton // Abril 19, 2009 às 7:46 pm |
Conheci Socorro de um modo especial: enfrentando um brincadeira no dia de seu aniversário. Vários funcionários contrataram um ator fantasiado de anjo que veio atender suas “preces” relacionadas a uma reforma que não acabava nunca em sua casa de praia, se não me falha a memória. Rezo para que Socorro tenha encontrado todos os anjos (verdadeiros) que merece…
José Mauro Hajaj Gonzalez // Abril 22, 2009 às 10:00 am |
A Socorro era fogo. Mais de uma vez ela fez comentários bastante “objetivos” sobre alguma peça de roupa minha, e que eu nunca mais voltei a usar.
Eu gostava muito dela… Faz falta. Mas está presente também.
Alex // Abril 30, 2009 às 1:25 am |
Depois de ler este texto lindo sobre a Socorro fiquei pensando… ela sim foi uma mulher virtuosa. Em seus últimos momentos de vida, lembrou-se de que tem uma das coisas mais importantes desta vida: Amigos!
Eu, graças a Deus, tenho você Lu! Por isto sou tão feliz!!!
Ana // Maio 4, 2009 às 7:47 pm |
Socorro! Lembro-me das palavras que dizia: -”Escuta! Quando que você vai fechar essa boca e fazer um regime” Aquilo sim, doia, mas no fundo ela tinha razão. Gostava dela….
Silvio // Maio 7, 2009 às 7:56 am |
Olá? Qual Ana é vc?
Affonso Fausto // Maio 29, 2009 às 9:37 am |
“Tempo? Se as pessoas esbarrassem, para pensar — tem uma coisa! –: eu vejo é o puro tempo vindo de baixo, quieto e mole, como a enchente duma água… Tempo é a vida da morte: imperfeição.”
(Guimarães Rosa – Grandes Sertões, Veredas)