A Socorro era aquele tipo de pessoa que diz a verdade doa a quem doer. E como doía ouvir o que a gente sabia que ia doer ouvir. Mas ela dizia com todas as letras, no tom e olhar cruelmente exatos. Como Sean Connnery no filme Corações Apaixonados, às vezes tínhamos vontade de implorar: “Não me olhe com esse tom de voz”.
Muitas vezes exagerava. Mas se você tivesse a mínima desconfiança de ter errado no modelito escolhido para ir ao trabalho, ela te dava a certeza de que tinha mesmo. Portanto, se você foi vestida “como um sabiá”, era isso que ia ouvir se pedisse a opinião dela.
A Socorro era meio ríspida, meio generosa, meio indiferente, meio ácida, meio doce… Humana, enfim. E não se envergonhava de ser. Pelo contrário: fazia questão de que nós nos víssemos e nos sentíssemos humanos, através dela. Tinha a pretensão de colocar a todos no seu devido lugar.
Sonhei com ela noite passada. E lembrei-me do telefone tocando de madrugada com a voz da notícia que eu não queria receber. O câncer a tinha vencido. A ela, que eu achava invencível.
Ainda me emociono ao lembrar da sua voz já fraca, um dia antes de partir, me sussurrando quando eu lhe perguntei de onde ela tirava tanta força…
“É que eu tenho… A… migos…” . Foram as últimas palavras que ouvi dela.
Saudade de você, Socorro.