Relatos ao Pé da Letra

Entradas do Novembro 2008

Portugal.

Novembro 16, 2008 · 4 Comentários

Aos meus antepassados (ao meu avô Joaquim) e meus amigos portugueses e filhos de portugueses João Monteiro e Mariana Gancho. Para eles, Fernando Pessoa em versos sobre “Um Império que se desfez”, mas que de alguma forma lá no fundo, ainda somos nós… Conquistando a distância e o desconhecido. Sempre!

O INFANTE

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo até o fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou, criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

NEVOEIRO

“Nem Rei nem Lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil o ser,

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer -

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

Que ânsia distante chora?

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro. É a hora….”

MAR PORTUGUÊS

“Mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por ti cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram,

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, Mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele que espelhou o céu.”

VALE A PENA SE A ALMA NÃO É PEQUENA. 

Essas poesias foram lindamente musicadas por André Luiz Oliveira nas vozes de Elba Ramalho, Gal Costa e pelo próprio André, respectivamente, num CD meio antigo chamado Mensagem, que foi remasterizado em novembro de 1996. Lembrando que na faixa “Nevoeiro” André Oliveira divide a composição com Zeba D´Al Farra. Outras poesias foram cantadas no mesmo CD por Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Zé Ramalho, Elizeth Cardoso, Moraes Moreira, Gilberto Gil, Belchior, Glória de Lurdes e Cida Moreira.  Lindo!

Categorias: Dicas de boa literatura · Dicas de boa música · Reflexões

Ainda Simone

Novembro 11, 2008 · 1 Comentário

Já citei neste blog o trecho de um livro de Simone de Beauvoir que eu adoro: A força das coisas. Há alguns anos ganhei do meu amigo Ney Curvo uma edição bem acabada do livro e de lá pra cá releio alguns trechos sempre que ouço muita gente falando em crise.

Há muito tempo eu descobri Simone de Beauvoir. Comecei lendo Memórias de uma moça bem-comportada, depois A força da idade e finalmente A força das coisas, onde encontrei uma escritora madura num momento em que eu estava numa idade mais ou menos entre os dois primeiros livros e não nesse.  Acho que eu não estava preparada para A Força das coisas quando o li pela primeira vez, nem para o tema da Libertação que permeia o texto, ao contrário do livro anterior, que fala muito da Guerra.

Naquela minha pouca idade, lembro-me de que eu achava que Simone já tinha dito tudo sobre si mesma nos outros dois livros. Mesmo assim, comecei a ler a primeira das 570 páginas de A força das coisas. E antes mesmo do primeiro capítulo, o livro fez todo o sentido para mim. Simone de Beauvoir escreveu A força das coisas na hora certa, como ela mesmo disse: “A indiferença, serena ou desolada, da velhice não me permitiria mais apreender o que desejo captar: aquele momento em que, na orla de um passado ainda ardente, começa o declínio. Desejei que meu sangue circulasse nessa narrativa; desejei lançar-me nela, viva ainda, e me pôr em questão, antes que todas as questões estivessem extintas. Talvez seja muito cedo ainda; mas amanhã certamente será tarde demais.”

Talvez esteja na hora de fazer algo realmente importante… Antes que seja tarde.

Categorias: Dicas de boa literatura