Recebida do meu querido amigo de muitos anos, Affonso Heleno de Oliveira Fausto, esse prefácio escrito por ele para o livro de Ana Fraiman é de uma delicadeza ímpar sobre o tema. Pedi autorização ao Fausto para publicá-lo aqui porque diz respeito a todos nós… Hoje ou amanhã.
SEXUALIDADE E TERNURA NA TERCEIRA IDADE
PREFÁCIO (*)
Querida Amiga,
Você me pediu que apresentasse este seu livro. Opto por traduzir o que a sua leitura me provocou. Quero dizer algo do fundo de mim para os que apreciam ler livros.
Tem gente que lê tarot. Tem gente que lê mão.
E tem aqueles que, sobretudo, conseguem ler, nas marcas do corpo, toda a grandeza, a majestosa história de uma vida vivida. Acho que sou desses, ainda que reconheça humildemente, também, que não sei como deve ser a sexualidade na terceira idade. Mas, com certeza a ternura, o afeto e, se possível, o amor deverão ser seus componentes fundamentais.
Pouco tempo faz, na manhã de um domingo tranqüilo e preguiçoso, ainda deitado, ouvi, surpreso, uma pergunta: “Posso fazer uma plástica? Você não acha que estou precisando? O tempo passa e eu, quero dizer, nós, ora, afinal….”
Aí me dei conta de que não éramos mais crianças, tínhamos atingido, juntos, a temida meia idade. Definitivamente, somos um casal de meia idade, com muitos anos de alegrias e angústias, partilhando as surpresas da vida.
Voltei à pergunta: “Porque a plástica? Por causa de uma discretíssima, imperceptível e sedutora barriguinha…? Lembra-se quando engravidou pela primeira vez, da emoção que nos invadiu ao percebemos uma vida tão querida ir tomando forma, ocupando espaço, se delineando, chutando, pedindo para nos conhecer, para ser amada? Pois é, começou aí… E da segunda vez, daquela menininha que nos deu tanta alegria após a dor da perda, dias antes, de um ente querido? Pois são essas imperceptíveis estrias que estão nos fazendo recordar todas essas coisas e, então, porque eliminá-las? Elas, as estrias e as gordurinhas, contam a história de nossas vidas, das vidas que geramos e que hão, se Deus permitir, de gerar outras vidas e chorar as nossas, quando partirmos. Seu corpo, assim como está, é o meu, o nosso diário, que começamos a escrever na própria pele, quando nos conhecemos. Seu sorriso, agora, traduz compreensão, amizade e indisfarçável cumplicidade. Afinal, nos amamos, nos entendemos e, principalmente, nos conhecemos”.
“O busto? Ora, é de mulher, é lindo; alimentou, deu vida e, garanto, foi desejado pelos nossos filhos tanto quanto por mim, embora por motivos diferentes… Agora ele é só meu, descanso terno de minha cabeça grisalha. A plástica, pode fazer, mas com ela apagaremos a história de nossas vidas, cuja memória, então, só a teremos no coração”.
Assim, minha Amiga, ler seu livro nos propiciou, a mim e a ela, essa redescoberta de nos mesmos e, como casal, reforçou nossos laços e nos tornou bonitos e desejáveis.
Foi muito bom.
Ótimo. Perfeito. Muito bom, mesmo!
Aprendi. Acho, até, que fiquei melhor, amiga minha… Este seu livro será um manual da arte de viver (bem) a vida. Pelo menos, esta vida.
Ele há de, com ternura, bom humor e afeto, atingir os corações abertos e cicatrizar as feridas da vida. Talvez, também, abrir as mentes fechadas, de medo ou por dor… E fá-lo-á com amor.
Então, os moços e os nossos velhos saberão exercitar a sua sexualidade, fruindo a vida em toda a sua plenitude.
Que Deus a abençoe.