Relatos ao Pé da Letra

Entradas do Agosto 2008

Cinema.

Agosto 24, 2008 · 1 Comentário

Três magias lembram-me todos os dias de que sou humana: cinema, música e literatura, nessa ordem. Por isso, sempre que posso, assisto a esses filmes – não necessariamente nessa ordem.

De Bob Reiner: Antes de Partir. De Jean Jacques Annaud: a Guerra do Fogo. De Michelangelo Antonioni: Além das Nuvens. De Hal Ashby: Muito além do Jardim. De Jon Annet: Tomates Verdes Fritos. De Hector Babenco: Ironweed. De Fábio Barreto: O Quatrilho. De Bruce Beresford: Conduzindo Miss Daisy. De Bernardo Bertolucci: O Último Imperador. De Kenneth Brannag: Para o Resto de Nossas Vidas. De Martin Brest: Perfume de Mulher. De Luís Bunüel: A Bela da Tarde. De Tim Burton: Edward Mãos de Tesoura. De Jane Champion: O Piano. De Frank Capra: A Felicidade Não se Compra e Horizonte Perdido. De Leos Carx: Os Amantes de Pont-Neuf. De Liliana Cavani: O Porteiro da Noite. De John Cromwell: Servidão Humana. De Vitorio de Sica: Ladrões de Bicicleta. De Jonathan Demme: Filadelphia. De  Cacá Diegues: Chuvas de Verão. De Clint Eastwood: As Pontes de Madison. De Rainer Werner Fassbinder: Lili Marlene (música inesquecível). De Federico Fellini: Amarcord (meu preferido), A Doce Vida, E La Nave Va, Fellini Oito e Meio, Noites de Cabíria e Julieta dos Espíritos. De Milos Forman: Um Estranho no Ninho. De John Frankenheimer: Sob o Domínio do Mal. De Stephen Frears: Ligações Perigosas. De Lewis Gilbert: O Despertar de Rita e Shirley Valentine. De Lasse Hallströn: Minha Vida de Cachorro.  De James Ivory: Vestígios do Dia.  De Stanley Kubrick: 2001 Uma Odisséia no Espaço e O iluminado. De Fritz Lang: Metrópolis e O Vampiro de Dusseldorf (atenção ao julgamento dos mendigos). De David Lean: A Filha de Ryan. De Ang Lee: Razão e Sensibilidade. De Claude Lelouch: Um Homem, Uma Mulher e Retratos da Vida (maravilhoso!). De Sérgio Leone: Era uma vez na América. De David Lynch: Veludo Azul. De Louis Malle: Adeus Meninos e Perdas e Danos. De Leo Macarey: Tarde Demais para Esquecer. De Anthony Minghella: O Paciente Inglês. De Mário Monicelli: Parente é Serpente. De Alan J. Pakula:A Escolha de Sofia. De Alan Parker: Asas da Liberdade, Bem-vindos ao Paraíso, Coração Satânico, O Expresso da Meia Noite e The Wall. De Michael Radford: O Carteiro e o Poeta. De Valter Salles Jr: Central do Brasil. De Nélson Pereira dos Santos: Memórias do Cárcere. De Carlos Saura: Ana e os Lobos, Bodas de Sangue, Carmem, Cria Cuervos e Mamãe Faz Cem Anos. De Fred Schepisi: Seis Graus de Separação. De Joel Schumacher: O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (lindo). De Ettore Scola: Um Dia Muito especial (fabuloso!) e Splendor. De Martin Scorcese: New York, New York. De Ridley Scott: Blade Runner (atenção à última frase do andróide sobre a efemeridade da vida).  De Steven Spielberg: A Cor Púrpura e A Lista de Schindler. De Jeannot Szwarc: Em Algum Lugar do Passado. De Jacques Tati: Meu Tio. De Giuseppe Tornatore: Cinema Paradiso e Estamos Todos Bem (atenção à cena do alce na estrada). De Luchino Visconti: Morte em Veneza. De Peter Weir: Sociedade dos Poetas Mortos. De Wim Wenders: Asas do Desejo e Tão Longe Tão Perto. De Robert Zemeckis: Forrest Gump. De  Fred Zinnemann: Julia.  E todos, todos, de Ingmar Bergman: Cenas de Um Casamento, Da Vida das Marionetes, Diário de uma Filmagem, Fanny & Alexandre, Gritos e Sussurros, A Hora do Amor, Morangos Silvestres, Persona (inesquecível), O Ovo da Serpente, O Sétimo Selo (obrigatório!), Sonata de Outono, Sorrisos de Uma Noite de Verão e outros.

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Pré-conceito.

Agosto 20, 2008 · 5 Comentários

Ela é negra. O marido é branco. O filho deles, ainda bebê, é branco. A criança fica doente e não pode ir à escolinha. A avó materna, uma senhora de idade, negra, precisa ir ao posto do INSS passar por uma perícia. Leva o bebê. O médico atende a senhora e pergunta: “Que criança é essa, dona?”. Ela responde que é neto dela. E ele: “Que neto coisa nenhuma. Você seqüestrou essa criança. Cadê o documento?” E a avó: “Mas eu não ando com documento do bebê. É meu neto.” E o médico: “Onde já se viu? Uma negra dizendo que é avó desse branquinho?”   E chama os seguranças do posto. A criança é arrancada à força dos braços da avó. A avó é trancafiada num quartinho. A criança chora, debate-se no colo do segurança, depois berra ao ver a avó sendo levada. A avó grita repetindo que é avó da criança. As pessoas do posto do INSS se assustam. Alguns correm para acudir. Outros olham perplexos.

Cenas de um filme de terror?

Não.  Aconteceu hoje com a mãe de uma colega. Aqui. Aqui mesmo em São Paulo. Num posto do INSS.

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Olim-piadas brasileiras 2008

Agosto 18, 2008 · 3 Comentários

Que me perdoem os torcedores resilientes, mas assistindo aos jogos olímpicos de Pequim, particularmente à participação do Brasil, ainda me espanto com a falta de compromisso de alguns de nossos atletas. Aliás, não só dos atletas, diga-se de passagem. Logo na transmissão da abertura, um empolgado locutor já profetizava: “Eis aí nossos atletas na China. Mas é claro que não têm nenhuma obrigação de trazer medalhas”…  Ora, como não? Afinal, o que foram fazer lá? Turismo?

Prova disso foi a entrevista concedida por uma de nossas atletas depois de uma pífia apresentação:”Ah! Eu não vim aqui pra ganhar medalha; eu cheguei na final, tá bom! Eu podia ter feito melhor (e por que não fez?!), mas estou satisfeita”. – disse ela com o ar blasê de quem não precisa disso.

Nessas horas eu fico tentada a concordar com os pessimistas quando dizem que brasileiro sempre acha que está fazendo muito… É que em seguida a gente vê as chinesas, as romenas, dando tudo de si e um pouco mais, mas ainda achando que fazem pouco. Talvez no país delas ninguém tenha que torcer contra as adversárias para que suas atletas tenham chance.

Bem… Salvaram-se pela demonstração de dignidade o judoca Eduardo Santos – que admitiu estar incompetente para derrotar o adversário, e Diego Hipólito – que soube pedir desculpas ao invés de esconder-se atrás de desculpas.

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“Sambarilove”: você ainda vai conhecer um.

Agosto 14, 2008 · 3 Comentários

Você conhece alguém capaz de discursar durante horas, empolgar toda uma platéia, fazer todo mundo sair satisfeito, sem dominar absolutamente nada do assunto? 

Você conhece alguém capaz de fazer comentários geniais sobre o último livro de José Saramago sem jamais ter lido uma linha sequer desse autor? 

Você conhece alguém que parece estar sempre trabalhando como louco, tem a imagem de quem trabalha como louco, vira uma espécie de celebridade no meio em que atua porque todos acham que trabalha como louco, sem jamais ter colocado a “mão-na-massa”? 

Se você conhece alguém assim na sua empresa, na sua família, no seu grupo social… Então você conhece um “Sambarilove” (*). 

O “Sambarilove” não é necessariamente um sujeito malvisto ou malquisto. Pelo contrário, o “Sambarilove” tem boa imagem, é falante, boa praça, antenado com a moda e com os tititis do momento, puxa o saco só de quem vale a pena (e o faz com uma naturalidade espantosa), circula por todos os eventos que importam, conhece gente famosa (ou pelo menos diz que conhece) e tem um networking invejável, tanto que está sempre em posição de destaque no mercado, na família, no clube, no time.  

Conheci um “Sambarilove” legítimo que colecionava frases de vários críticos sobre determinados temas só para, mudando uma palavrinha aqui outra ali, emitir opiniões sobre o assunto em determinados eventos. Um outro “Sambarilove” mantinha em seu apartamento uma coleção de resumos de livros famosos com frases pinçadas a dedo em cada um deles só para citá-las nos eventos que freqüentava. Aliás, como diz uma amiga minha, o “Sambarilove” é o rei do pocket!

No ambiente corporativo, é considerado um líder nato. Contrata sempre os melhores profissionais (por razões óbvias) e tem a equipe mais produtiva e competente da empresa, cujos resultados são invariavelmente acima da média. Ou seja: ele não precisa fazer rigorosamente nada!

Aliás, pensando bem, sua grande virtude está justamente nisso: em não atrapalhar, já que não pode ajudar.  

(*) O nome “Sambarilove” refere-se ao personagem do comediante David Pinheiro, do programa de televisão “Escolinha do Professor Raimundo”, que era um puxa-saco incorrigível e sempre conseguia tirar as melhores notas, sem nunca estudar.

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Pra variar… Quintana.

Agosto 9, 2008 · Deixe um comentário

DEFINIÇÕES

Incenso: defumação aromática para hipnotizar Nosso Senhor.

Melancolia: maneira romântica de ficar triste.

K: letra caminhante.

Adolescência: idade em que a gente lê sem estar pensando noutras coisas.

Diálogo: dois monólogos intercalados.

Saudade: é o que faz as coisas pararem no tempo.

Cão: amigo e grande puxa-saco do homem.

Eternidade: um relógio sem ponteiros.

Vento: pastor das nuvens.

E pra fechar…   

Lavoisier: “Nada se perde, tudo muda de dono.” 

Né?

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Não somos nichos.

Agosto 4, 2008 · 1 Comentário

Um estranho cacoete profissional faz com que algumas pessoas se esqueçam de que antes de “público”, somos pessoas; antes de “nichos”, somos humanos vivendo em sociedade.

Esses dias ao comentar com uma amiga sobre uma pesquisa feita nos Estados Unidos a respeito de longevidade (e o que fazer com ela), ouvi-a dizer que “não se pode comparar Brasil com EUA porque são públicos completamente diferentes.”

Ué… E eu que achava que havia humanos nos EUA! Não, gente! Tem público! O pior é pensar que isso pode ter lá seu fundo de verdade…

Mas a pesquisa à qual eu me referia mostrava que o Brasil está entre os países mais empreendedores do mundo, sobretudo entre o público sênior (acima dos 50 anos de idade) ficando em 9º lugar, à frente da Rússia, Índia e Japão. A disposição de continuar trabalhando ou de iniciar um negócio próprio no pós-carreira – tanto aqui como nos EUA – parece ser a mesma. É que esse fenômeno não diz respeito à cultura; diz respeito, isso sim, à questão da longevidade. Não podemos nos esquecer de que por volta de 1900 a expectativa de vida do brasileiro não passava dos 35 anos; hoje passa dos 70 anos. Tá sobrando disposição na terceira idade! Aqui e nos EUA! Por isso eu citei a pesquisa.

Quanto a culturas diferentes (Brasil X EUA), tenho um amigo que sempre ficava muito bravo quando eu dizia isso porque segundo ele (que é americano e morou muitos anos no Brasil), “A não ser pelo que eles historicamente têm de MAIS e nós de MENOS (dinheiro e direitos, basicamente), no restante somos apenas humanos vivendo em países de dimensões continentais, com os mesmos problemas regionais.”

Bem… Ele deve ter alguma razão. Na TV brasileira tem propaganda de tudo quanto é produto sendo veiculada tal como foi produzida originalmente; nem se preocupam mais em fazer a tradução dos anúncios… E vende!

Tem até conceito de previdência complementar importado ipsis litteris dos EUA que caiu “como uma luva” no mercado brasileiro. É que tanto aqui quanto lá, feliz ou infelizmente, mais cedo ou mais tarde, todos passamos pelas mesmas etapas de vida, o que prova que antes de “público”, seja onde for, ainda somos humanos, graças a Deus!

O que fazer com esse saldo de vida é que são elas…

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