Onde o mal está.

Nada do que se falou ou publicou até agora sobre o atentado em Boston representa melhor o sentimento de quem esteve muito perto dessa tragédia, que a resposta da menina de 10 anos de idade, Emira Myers, colega de escola do garotinho Martin Richard, morto no atentado, ao ser perguntada como se sentia. Disse ela: com medo. Eu nunca sei onde as pessoas do mal estão.
Querida, nós também não.

Obs: a frase da menina foi publicada na revista Veja da semana passada.

A vida dos outros.

Às vezes parece, mas não é. A gente é que insiste em criar histórias que, se verdadeiras, de fato seriam bem mais picantes (ou interessantes, como queiram) que a realidade. A gente faz isso com a vida alheia.

Porque é triste demais descobrir que aquela moça linda, inteligente, de aparência saudável e que namora o moço bonito, inteligente e bem sucedido não é uma vampira insaciável ou alguém a quem tenhamos que invejar. Ela é só uma moça bonita sendo consumida por um câncer e com  pouco tempo de vida.

Porque não é menos triste descobrir que aquele colega que todos pensavam ser o homem mais rico e feliz do planeta, na verdade convive com  uma esposa doente. E doente de um mal progressivo, incurável, e que dele depende até para se alimentar.

É… As histórias que criamos são bem mais interessantes. Talvez por isso mesmo nós as criemos.

Para suportar. Ou para não pensar que pode acontecer com a gente.

Caçadas.

O livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, conta a história da turma do Sítio do Picapau Amarelo em busca de uma onça-pintada. Ponto.

Mas em nome do politicamente correto querem banir o livro de nossas escolas. Acusam-no de racista por conter trechos em que tia Nastácia é chamada de macaca.

Fico pensando se hoje retirarmos dos retratos o charuto da boca de Freud isso o tornará maior.

Não dá pra apagar o que fomos. Quando nossos ancestrais chegaram aqui, o que não mataram, no caso os índios, eles escravizaram, no caso os negros. E desmataram! Fato. Mas eu tive professores bons o suficiente para explicar em sala de aula aquele contexto. Essa, aliás, é a missão dos professores. Ou não? E as dos pais, a de ensinar seus filhos a respeitar as pessoas e preservar a natureza. Ou não?

Essas militâncias fanáticas me assustam. Sou da época da ditadura. Ainda me arrepio.

No Guia Politicamente Incorreto da Filosofia -  Ensaio de Ironia, do filósofo Luiz Felipe Pondé, que ganhei da minha querida amiga e advogada Valéria Mello, tem uma passagem que diz algo sobre isso. Ao chegar à Islândia – escreve ele  – minha mulher me chamou atenção para uma propaganda colada nas paredes do aeroporto. Tratava-se do anúncio de uma grife de roupa islandesa chamada 66º North. Na foto havia um homem com roupas de inverno islandês, ao lado um texto que dizia: Respeite a natureza, mas não há garantias de que ela o respeite de volta.

É isso.

Mil coisas.

É estranho como minha mente relaciona algumas pessoas a algo, em alguns casos meio banal, que elas me dizem em algum momento da vida.

Minha amiga Valéria Mello costuma dizer que com a idade, a gente vai dando oficina… Com a idade, fui percebendo como ela tem razão.

Já minha amiga Marlene Rainer aconselha esfregarmos muito bem com a bucha a boca de um copo para evitar bactéria… Nunca mais parei de fazer isso, pode?

E minha amiga Rosângela Granato, que diz que a nossa vida é como é em função de escolhas que fizemos lá atrás… Bem, não me lembro direito de algumas, mas ela deve ter razão.

Já meu amigo Terra Lima diz que é melhor ter um cão pequeno porque por mais forte que seja a mordida, não vai arrancar sua mão… Acreditem: ele sabe o que está dizendo.

E o Mil coisas, mil coisas do Gilberto Goncalves que nunca entendi muito bem o que significa? Mas ele me explicou direitinho pelo Facebook: este ‘bordão’ era do personagem Patropi ainda na Praça da Alegria. Ele começava uma enorme explicação e terminava com esse bordão e não explicava nada!! Confesso que fiquei na mesma…

Sem contar o beijinho pra Jesus, acompanhado de um biquinho olhando para o céu, que segundo a minha amiga Sueli Monteiro, ajuda a prevenir rugas no pescoço… Bem, com aquele rosto lindo que ela tem, quem vai olhar para o pescoço?

Mas o Força na peruca… Ah! Essa é o bordão da minha amiga Fatima Terada.

E força na peruca pra todo mundo que atrás vem gente… Ou vice-versa. Sei lá, entende? Mil coisas…

O valor das coisas.

Hoje de manhã Salomão Schvartzman, o colunista da Band News que eu adoro ouvir desde os tempos da Rádio Cultura, contou a seguinte história contada pelo dr. Zerbini, médico e um dos pioneiros da técnica dos transplantes do coração. Ao levar seu carro à oficina mecânica, ouviu do mecânico o seguinte comentário:  - Ô doutor, veja só, eu abro o motor deste carro, troco as válvulas, conserto tudo o que foi prejudicado pelo entupimento, fecho o motor e ele sai funcionando direitinho. É exatamente o que o senhor faz. Só não entendo porque o senhor ganha tanto e eu tão pouco. Ao que o dr. Zerbini respondeu: – É, mas tente fazer tudo isso com o motor funcionando…

Essa história me fez lembrar de outra, que não sei se é lenda, mas é tão boa quanto. Ao receber a reclamação de um cliente por conta do preço cobrado por um laudo jurídico, o famoso advogado Valdir Troncoso Peres simplesmente pegou o laudo da mão do cliente, rasgou a parte onde estava a sua assinatura e disse a ele: – Pronto. Agora é de graça!

O que me levou a outra história que me permito ocultar os nomes pois aconteceu em ambiente de trabalho. Ao ser informado sobre o valor do cachê de uma famosa atriz que iria estrelar a propaganda da empresa, o responsável pela área de Marketing, vira-se para ela e fulmina: – Tudo isso por trinta segundos de anúncio na TV? E ela, ligeira: – Por trinta segundos? Não. Por trinta anos de carreira.

É o valor que muitas vezes as pessoas esquecem que as coisas têm…

Demografia e desemprego.

Até o final desta década o número de adultos produtivos no Brasil será menor que o número de crianças e idosos. Os índices de natalidade estão despencando e  os idosos  de 70 anos estão tão ou mais saudáveis que os de 60  de três décadas atrás. Mas o sistema previdenciário não acompanhou essa mudança radical. Isso vale para o Brasil e para a maior parte dos países.  Da entrevista de Ronald Lee, economista e demógrafo americano à revista Veja.

Eu diria mais: o mercado de trabalho acompanhou menos ainda essas mudanças. Com 40 anos de idade ou mais, ótima formação, vasta experiência, excelente conhecimento e fluência em idiomas, tenho dezenas de amigos desempregados.

Ronald Lee propõe  incentivos fiscais para empregadores que contratarem funcionários mais velhos. Eu concordo. E iria além: já pensamos em contratar ex-funcionários ou aposentados das próprias empresas, que as conhecem muito bem, para orientar e coordenar o trabalho desses milhares de jovens que atuam nas centrais de atendimento e de telemarketing?  Esses idosos voltariam a consumir, a pagar impostos e a contribuir para a Previdência;  nós teríamos um atendimento de melhor qualidade e as empresas certamente gastariam menos com projetos de relacionamento e de CRM, algumas vezes inúteis.

Para mim, Ronald Lee está certo. Temos que começar a tratar essas questões com menos ideologia e mais objetividade.

Disso depende nosso futuro como nação. E como depende!

Não, Ana Maria, ela não é doente.

É estranho como algumas pessoas têm dificuldade para acreditar que um seu semelhante pode ser mau. Simples assim: mau.  Algumas pessoas são más. Ponto.

Hoje pela manhã, aguardando minha vez no dentista, ouço a apresentadora de um programa de culinária tentando convencer o telespectador, e talvez também a si própria, de que aquele verme de mulher que espancou um cachorro com um cabo de vassoura, ou aquele outro verme de mulher que matou um cãozinho após torturá-lo  sem dó nem piedade, ou aqueles outros vermes que incendiaram um índio, ou aqueles outros vermes que matam moradores de rua, são dignos de pena porque, segundo a tese dela, alguém que pratica esses tipos de  crueldade só pode ser doente ou muito solitário.

Nem uma coisa nem outra,  Ana Maria. Ou a senhora é tão ingênua que consegue acreditar nessa bobagem,  ou esse discurso é apenas mais um jogo da mídia.

Essas pessoas são seres maus. Sim, eles existem e estão entre nós, como Aliens esbofeteando a maldade na cara da gente. E nós não fazemos nada porque temos o livre arbítrio de pensar que são doentes. Não são!

Eu sempre tive uma desconfiança de que todo ser humano nasce mau. Se alguém não educar, será um adulto do mal. É para isso que a educação existe: para transformar um serzinho cruel num adulto de bem. Porém, também desconfio que alguns seres, ditos humanos, nascem maus e serão maus para sempre, apesar e a despeito da educação.

É o caso, Ana Maria. É o caso.